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Tradicionalismo05/09/2019 | 17h08Atualizada em 05/09/2019 | 17h08

A vez das patroas: mulheres ganham espaço na chefia de piquetes do Acampamento Farroupilha

Evento abrirá as portas no sábado, com pelo menos 46 dos 346 lotes comandados por elas

A vez das patroas: mulheres ganham espaço na chefia de piquetes do Acampamento Farroupilha André Ávila/Agencia RBS
Cláudia Regina está à frente do CTG Guardiões do Rio Grande Foto: André Ávila / Agencia RBS
Rossana Silva - Especial

Da chefia dos piquetes ao comando dos espetos nas churrasqueiras, as mulheres ocupam cada vez mais espaço na realização do Acampamento Farroupilha. O evento em Porto Alegre abrirá as portas no sábado (7), com pelo menos 46 dos 346 lotes chefiados por elas. A patroa do CTG Guardiões do Rio Grande, Cláudia Regina Pinto Ribeiro, 54 anos, é exemplo de como as gaúchas têm conquistado diferentes frentes no tradicionalismo. Às 12h30min de quarta-feira (4), Cacau, como é conhecida, revezava-se entre a organização, a cozinha e a recepção de um grupo de 20 idosos que almoçavam na sede do piquete ligado à Polícia Civil. Sua participação no piquete, porém, não se resume a isso.

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— Aqui, as mulheres fazem de tudo. Se tiver que assar, assamos. Quando os homens estão trabalhando na construção do piquete, assumimos a churrasqueira. Esse ano, também pegamos junto na obra. É claro que levamos em conta  a questão da força física, mas podemos ajudar. Juntos, conseguimos fazer qualquer coisa — acredita a patroa.

No lote C141, assim como em outros locais do parque, a atividade de caseiro, uma das que até há algum tempo atrás eram consideradas masculinas, também é desempenhada por elas. Cacau aponta com orgulho a escala pendurada na parede, na qual as mulheres se revezam com os homens para "caserear" o espaço, assumindo a responsabilidade pelo cuidado noturno do local. À frente do CTG desde maio do ano passado, ela diz nunca ter sofrido preconceito. Por outro lado, as cenas de espanto eram recorrentes em 2018, quando muitos homens chegavam ao lote perguntando quem era o patrão:

— Eu respondia "sou eu a patroa!" E eles arregalavam os olhos.

Uma reação à qual a comissária de polícia aposentada diz estar acostumada, depois de 28 anos atuando em unidades da Polícia Civil da Capital e do Interior.

— As pessoas procuravam por um policial, esperando que fosse um homem. Eu precisava me apresentar — lembra.

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Uma das atividades mais aguardadas no CTG Guardiões do Rio Grande é o Casereio das Mulheres. É quando 10 delas se reunirão para dormir no espaço, no próximo dia 14.

— É o momento em que conseguimos beber um pouquinho. É como se fosse uma grande festa do pijama — diverte-se Cacau.

 PORTO ALEGRE, RS, BRASIL - 2019.09.04 - Gaúchas do acampamento farroupilha. Na foto: Delair (Foto ANDRÉ ÁVILA/ Agência RBS)
Delair é responsável pelo Aí Que Eu Me RefiroFoto: André Ávila / Agencia RBS

Outra patroa conhecida como uma das mulheres mais campeiras do Parque Maurício Sirotsky Sobrinho é Delair Fátima Figueiró de Oliveira, 58 anos. Durante o Acampamento, a responsável pelo piquete Aí Que Eu Me Refiro permanece das 8h às 0h no lote E17 — expediente que se prolonga aos finais de semana. Nos seis anos como chefe do espaço, ela observou como a participação feminina aumentou no acampamento.

— As mulheres estão dominando tudo — resume.

As mãos da vendedora mostram machucados de bater martelo, carregar o caminhão para levar o material da obra e queimados de acender as chamas do fogão à lenha.

— Isso aqui é de bater martelo e Faço tudo porque gosto. As pessoas se surpreendem — afirma.

MTG pode ter presidente mulher pela primeira vez

A conquista de espaço no Acampamento Farroupilha acompanha o momento vivenciado pelo MTG, que pode ter uma presidente mulher pela primeira vez na próxima gestão. As tradicionalistas Eleni Winck, de Panambi, e Gilda Galeazzi, de Passo Fundo, são as únicas aspirantes ao cargo até o momento.

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—É natural da sociedade que as mulheres conquistem cada vez mais espaço e novas posições, e o MTG anda a favor da história — afirma o presidente da entidade, Nairo Callegaro 

Para a cantora e apresentadora do Galpão Crioulo Shana Müller, ocupar cargos importantes é uma prova de que "o espaço das mulheres está garantido como seres pensantes da tradição":

— A questão da mulher na cultura gaúcha passa pela identificação. A gente precisa se enxergar naquele lugar. Passamos por um momento de transformação. Estamos saindo de um lugar de reclamação para a ação, tomando a frente, o poder, as rédeas, e disputando esses espaços.

Shana é idealizadora de uma das iniciativas que buscam incentivar a presença feminina em novos espaços do tradicionalismo: o Peitaço da Composição Regional, que reuniu em Júlio de Castilhos 40 musicistas, intérpretes, compositoras e poetisas, em julho. 

 
 
 
 
 
 
 
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