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Já mudaram03/12/2019 | 22h07Atualizada em 03/12/2019 | 22h07

Projeto em Porto Alegre, ônibus sem cobrador já é realidade em cidades da Região Metropolitana

Levantamento de GaúchaZH identificou que flexibilização ocorre devido ao uso do cartão eletrônico e baixo número de pagantes

Projeto em Porto Alegre, ônibus sem cobrador já é realidade em cidades da Região Metropolitana Lauro Alves/Agencia RBS
Em Novo Hamburgo, 46% das linhas já circulam sem cobradores Foto: Lauro Alves / Agencia RBS

Ônibus grandes, dezenas de passageiros em deslocamento e um lugar de destaque vazio: o do cobrador. A cena, que poderia parecer inusitada se pensada há alguns anos, começa a se tornar comum no transporte coletivo municipal da Região Metropolitana.

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Alvo de discussões em Porto Alegre, o projeto de lei (PL) que prevê a retirada de cobradores de parte dos ônibus tem causado discórdia entre prefeitura e rodoviários. Atualmente, a lei prevê que a Capital deve manter os profissionais em todos os veículos do transporte coletivo municipal. O PL encaminhado pelo Executivo e que tramita na Câmara (deve ser votado na próxima semana), porém, prevê a flexibilização à noite e durante a madrugada.

GaúchaZH escolheu 11 cidades próximas a Porto Alegre para verificar como a atividade do cobrador está funcionando em cada uma. A situação pôde ser constatada em 10 municípios: Alvorada, Cachoeirinha, Canoas, Esteio, Gravataí, Guaíba, Novo Hamburgo, São Leopoldo, Sapucaia do Sul e Viamão. Eldorado do Sul acabou excluído do levantamento por não contar com transporte municipal.

O levantamento identificou que, em diferentes níveis, linhas de ônibus já circulam sem cobradores em alguns momentos — dependendo do município, a flexibilização foi feita em maior ou menor grau. Isso ocorre principalmente em horários que não são de pico e atinge linhas com baixo número de pagantes.

Um dos motivos apontados para a necessidade da alteração é o aumento do uso do cartão eletrônico. Nos casos em que não há cobradores, o próprio motorista é quem faz a cobrança.

Em duas cidades, o cenário é ainda mais diferente e consolidado: as linhas de Esteio, compostas por micro-ônibus na totalidade, e de Sapucaia do Sul, com maior parte também composta por veículos menores, circulam sem nenhum cobrador desde 2008 e 2012, respectivamente.

— O número de pessoas que os motoristas cobram é muito baixo. Todo mundo praticamente usa o cartão através da bilhetagem eletrônica. Quem anda no transporte coletivo atualmente? Quem tem gratuidade. Estamos tendo que repensar o transporte coletivo, que só perde passageiros e está se tornando quase que inviável. Não tem nem como pensar em colocar cobrador — relata o secretário de Segurança e Trânsito de Sapucaia do Sul, Arno Leonhardt.

Até quatro pagantes em linhas de Canoas

Há cerca de oito meses, as mudanças começaram a ser feitas em Canoas, onde há 60 mil passageiros diários. A primeira fase contou com a retirada de cobradores aos domingos, quando a frota já é reduzida: atualmente, 80% das 68 linhas, isto é, 54, circulam sem os profissionais nesses dias. Durante a semana, quando há 135 linhas, a alteração é feita de forma experimental, com redução de 20% em dias úteis, e 30%, aos sábados.

Um levantamento feito pela prefeitura e pela empresa Sogal, que opera as linhas municipais, identificou que cerca de 40% das 2,2 mil viagens diárias operam com baixa demanda. Em alguns casos, o número de pagantes não passa de quatro.

— São linhas de baixíssima demanda em que o passageiro pagante praticamente inexiste. São poucas pessoas que pagam em dinheiro. Aqui em Canoas, 80% dos usuários utilizam o cartão Teu. E a função do cobrador está em cima dessa pessoa que paga em dinheiro para poder dar o troco — observa o diretor da Sogal, Marlon Casagrande.

Além do aumento do uso do cartão nos ônibus, a transformação passa por um cenário de crise no transporte coletivo. Entre os problemas apontados estão a gratuidade — passagem sem custo ou com valor reduzido para determinados grupos —, aumento do preço de insumos e consolidação do transporte por aplicativo, que causa queda no número de passageiros:

— É o reflexo de uma crise que faz com que o povo brasileiro tenha que se reinventar também profissionalmente. O que nos leva a tomar essas medidas é que diversos motivos causam a elevação das tarifas. A perda de usuários pagantes chega a 4% ao ano — admite o secretário de Transportes e Mobilidade de Canoas, Ademir Zanetti.

Após a operação experimental, a prefeitura de Canoas fará a avaliação sobre a retirada definitiva de cobradores em linhas que circulam em dias úteis e aos sábados.

— Nunca tive nenhum problema na viagem, porque a maioria daquele horário, de manhã cedo, era com cartão. Mas acho que vai haver demissões se não deslocarem os trabalhadores para outras áreas da empresa — relata a vigilante Rosa Maria Castro Paim, de 41 anos, moradora do bairro São José, em Canoas.

— O ônibus sem cobrador atrapalha. O motorista tem que parar, atender alguém, abrir a porta. Com cobrador é mais fácil, quando tem que dar troco também. Deveria ter cobrador - ressalta Izolda Santos, de 77 anos, aposentada moradora do bairro São Luis.

Em Novo Hamburgo, veto da prefeita para manter mudança

Em outubro, a Câmara Municipal de Novo Hamburgo aprovou projeto de lei para impedir as empresas de transporte coletivo da cidade — Viação Futura, Viação Hamburguesa, Courocap e Viação Feitoria— de retirarem os cobradores dos ônibus. A aprovação, que mudaria um cenário de oito anos na cidade, foi vetada pela prefeita Fátima Daudt sob a alegação de contrariedade ao interesse público. O veto da chefe do Executivo foi acolhido por vereadores no último dia 20.

Na cidade, 46% das linhas de ônibus circulam sem cobradores. Um eventual retorno dos profissionais à totalidade da operação poderia implicar em um aumento na passagem, que hoje custa R$ 3,85.

— Isso ocorre há muito tempo já. As empresas foram solicitando e, devagarinho, fomos ampliando, à medida em que fomos vendo que as pessoas usavam mais a bilhetagem eletrônica. Já era uma necessidade de redução de custos, e hoje é uma situação ainda mais impactante, porque o transporte público vive uma crise muito forte, com redução de usuários a cada dia — afirma a secretária de Desenvolvimento Urbano e Habitação, Roberta Gomes de Oliveira.

Conforme a prefeitura, não houve demissões de cobradores no processo — os profissionais foram transferidos para outras funções ao longo dos anos. O presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários de Novo Hamburgo, Lauri Finotti, confirma o fato, mas discorda da situação:

— Não sentimos demissões, porque essa é uma situação discutida há muitos anos na cidade. É uma realidade. Mas nós, trabalhadores, vemos como péssima (a retirada de cobradores dos ônibus). A passagem, por exemplo, não está diminuindo.

* Colaborou Amanda Caselli


 
 
 
 
 
 
 
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