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Mais resíduos11/05/2020 | 11h13Atualizada em 11/05/2020 | 17h26

Como a pandemia está influenciando o trabalho nas unidades de reciclagem

Com mais pessoas em casa, a produção de resíduos que podem ser utilizados por catadores até aumentou. Porém, vender o material está mais difícil em alguns galpões da Capital

Como a pandemia está influenciando o trabalho nas unidades de reciclagem Jefferson Botega/Agencia RBS
Aumento na quantidade de resíduos foi notado nos galpões da cidade Foto: Jefferson Botega / Agencia RBS

Logo que o período de isolamento social se iniciou, uma corrida aos supermercados chegou a gerar longas e filas e prateleiras com alguns produtos em falta. Com o passar dos dias, o ritmo diminuiu, mas os supermercados ainda são um dos poucos locais que seguem atendendo a população e gerando consumo. Este fator, aliado ao tempo maior das pessoas em casa, tem gerado uma consequência: mais lixo sendo produzido. 

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E isso tem beneficiado um setor importante da sociedade, os profissionais que trabalham com a separação e venda de resíduos recicláveis. Entre os itens comercializados estão, por exemplo, papelão, plástico e alumínio — muito comuns nas embalagens dos produtos que costumam compor a cesta de compras. Entretanto, não basta apenas ter mais material, para conseguir renda, os recicladores precisam vendê-los.

Em Porto Alegre, são cerca de 20 galpões de reciclagem espalhados por bairros da periferia. A prefeitura classifica os pontos como Unidades de Triagem (UTs). Normalmente, eles funcionam como cooperativas de trabalhadores e ganham conforme produzem. O que é arrecadado com a venda dos resíduos é dividido entre os colaboradores, na chamada partilha. Com mais lixo para ser processado, a partilha aumenta, em tese.

Afastamento de pessoas do grupo de risco

Mas nem todos os trabalhadores seguiram com essa renda com a chegada do coronavírus. Neste momento de pandemia, alguns locais tiveram de reduzir o quadro de recicladores, dispensando pessoas idosas ou com comorbidades que as coloquem no grupo de risco da covid-19. Isso acabou tirando a renda de algumas famílias. Esses grupos têm dependido de doações, como explica Solange Camargo, presidente UT Santíssima, no bairro Rubem Berta. Lá, a própria unidade consegue doações para ajudar estas famílias que ficaram sem renda.

— Eu tive que afastar 11 a pessoas. Agora, estamos entre 18. Mas estamos conseguindo doações de ranchos e cestas básicas para nos ajudar — explica Solange.

No caso da UT Santíssima, Solange diz que as doações estão sendo requisitadas por todos trabalhadores. Isso porque apesar de já estar com resíduos acumulando no pátio para separar, ela não consegue vendê-los. Alguns responsáveis pela compra dos materiais suspenderam as atividades e nem todos retornaram aos trabalho ainda.

— Neste momento, estamos trabalhando por amor à camisa — diz a presidente da unidade do bairro Rubem Berta.

Na UT Frederico Mentz, no bairro Navegantes, a situação é parecida. Conforme Núbia Vargas, responsável pelo local, alguns materiais estão sendo estocados para venda, como as latinhas de alumínio. No local, também estão sendo arrecadadas e distribuídas doações para trabalhadores que estejam passando por dificuldades. Núbia relata que o aumento da quantidade de lixo chegando nas unidades tem um ponto negativo: as pessoas não estão separando os resíduos corretamente. Isso acaba contaminando materiais que poderiam ser aproveitados pelos profissionais.

— A população já não tem uma educação ambiental muito boa. Agora, só em casa, colocam tudo junto no lixo. A gente pede que, por favor, façam a separação correta. Ninguém segue trabalhando nos galpões em meio à pandemia por que quer, a gente está aqui por não ter outra opção, precisamos dessa renda para sobreviver — alerta Núbia.

Cuidados redobrados nos galpões

 PORTO ALEGRE, RS, BRASIL - 08.05.2020 - Como a pandemia tem afetado as coletas e também os recicladores de lixo na Capital. Na imagem: UT Restinga - Coopertinga. (Foto: Jefferson Botega/Agencia RBS)Indexador: Jeff Botega
Na UT da Tinga, EPIs para todos os trabalhadoresFoto: Jefferson Botega / Agencia RBS

No galpão da UT Restinga, que fica no bairro de mesmo nome, o cenário é um pouco melhor. Os trabalhos seguem normalmente, como garante o vice-presidente da cooperativa, Remy Sosnosky. Ele próprio, aliás, aos 68 anos, diz que não parou de trabalhar. Porém, garante que estão sendo obedecidas todas as regras de distanciamento e uso de materiais de proteção no ambiente de trabalho. Conforme Remy, a unidade conseguiu manter a relação com todos seus compradores neste período e até elevou o valor da partilha por ter mais material separado. O vice-presidente diz que, por enquanto, nem há material em estoque, tudo que é separado, está sendo comercializado.

Preocupação é como o futuro

Para o presidente da UT campo da Tuca e membro da coordenação das cooperativas de reciclagem, Antônio Matos, o problema no setor pode estar nos próximos meses. Para ele, atualmente, os resíduos que se acumulam agora nas entidades podem sumir se a crise se estender e afetar ainda mais o consumo das famílias. E então, na visão de Antônio, seria uma efeito dominó.

— A pandemia pode até passar, mas o empobrecimento será cruel e difícil de ser revertido. E nós, na base dessa pirâmide, seremos os mais atingidos. O presidente do país se reuniu com o STF para intervir pelos empresários, mas quem precisa de ajuda é o povo, principalmente, os mais pobres — critica Antônio, se referindo a reunião de Jair Bolsonaro com o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli. O presidente estava acompanhado de ministros e de empresários, e pediu relaxamento da medidas de isolamento social para movimentar a economia do país.

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