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Beleza Afro09/04/2021 | 12h00Atualizada em 09/04/2021 | 13h53

Trancistas constroem sua autonomia através do cuidado com os cabelos afro

As tranças também representam a valorização da estética negra

Trancistas constroem sua autonomia através do cuidado com os cabelos afro Marco Favero / Agencia RBS/Agencia RBS
Evylyny (E), com a mãe, Lúcia, diz que profissão surgiu da relação com o próprio cabelo. Foto: Marco Favero / Agencia RBS / Agencia RBS

Para pessoas negras, a relação com seus cabelos vai além da estética. Valorizar seus crespos e penteados é também um símbolo. Nesse processo de cuidados capilares, a figura de uma profissional se destaca: a trancista. São mulheres pretas que fazem suas rendas com o cuidado dos cabelos de outras mulheres e homens negros.  

Desde muito cedo, Matilde Cruz, 52 anos, moradora do bairro Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre, trabalha como trancista. Ela conta que, nos finais de semana, sua mãe, que era empregada doméstica, precisava dormir na casa dos patrões. Afastada da mãe, ela ficava aos cuidados de uma tia, que trabalhava com tranças. Foi ali que teve os primeiros contatos com a profissão.  

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Em família

Matilde Cruz trabalha como trancistas desde os 13 anos<!-- NICAID(14753396) -->
Matilde trançando antes da pandemia.Foto: Rafael Muller / Divulgação

Apenas observando, Matilde foi aprendendo como fazer as tranças. Aos 13 anos, passou a ajudar sua tia, revezando com ela o atendimento a algumas clientes. Foi neste período que começou a construir sua própria rede. 

Já a aproximação de Evylyny Gomes Malaquias, 25 anos, com a profissão veio da relação com seu próprio cabelo. A moradora do bairro Agronomia, em Porto Alegre, conta que, muito nova, com apenas nove anos, começou a aplicar químicos para alisar seus cachos, “como quase toda mulher negra”. Somente em 2015 decidiu valorizar seus cabelos naturais e, nesse período, aplicou as tranças pela primeira vez. 

Evylyny é estudante de Farmácia. Sua primeira aplicação de tranças foi ela mesma que fez. Quando chegou na universidade com o novo penteado, as amigas gostaram tanto que viraram suas clientes. Na época, ela trabalhava como estagiária na prefeitura e fazia das tranças uma renda extra. Hoje, é sua atividade principal. 

“Se olham, e é demais a força”

Para a trajetória das duas trancistas, a relação com sua estética traz marcas. Matilde conta que, desde a escola, vivencia episódios de racismo.

– Aquilo que aconteceu no BBB, com o João, eu convivi desde criança – comenta ela, referindo-se à manifestação de cunho racista do participante do BBB21 Rodolffo em relação ao cabelo de seu colega de confinamento João Luiz, ocorrida nesta semana. 

Suas colegas a perseguiam e faziam piadas sobre seus cabelos e penteados. Ela lembra, também, de situações que enfrentou em empresas onde trabalhou. Em uma delas, ao tentar um novo cargo, só lhe foram delegadas atividades relacionadas a serviços de limpeza. 

– Mas, para a minha colega, que é uma pessoa branca, facilmente conseguiram outras vagas – comenta. 

Matilde destaca que, hoje, a estética negra tem sido valorizada, mas que isso é algo novo: 

– Estão falando mais na beleza negra, coisa que antes era escondido. Se falava que o negro não era bonito, mas, na minha época, os produtos de beleza eram caros e não tínhamos condições de comprar. 

Evylyny explica que suas clientes passam por algumas fases, em se tratando da aplicação das tranças. Algumas delas estão na transição, que é quando a mulher negra decide parar de utilizar produtos químicos que alisam os cabelos. E as tranças, elas fazem enquanto o cabelo cresce. Mas também há clientes com cabelos mais longos que gostam e seguem fazendo. 

– É incrível o empoderamento que dá, independentemente do processo em que elas estão. Se olham no espelho, e é demais a força (que sentem). Sou apaixonada por isso – completa Evylyny.

Planos futuros

PORTO ALEGRE, RS, BRASIL - 08.04.2021 - Contaremos a histórias de mulheres negras que encontraram nas tranças uma possibilidade de fazerem sua renda. São trancistas que, ao cuidar dos cabelos de outras mulheres negras, lutam por sua independência financeira. (Foto: Marco Favero/Agencia RBS)<!-- NICAID(14753466) -->
Evelyny trançando sua mãe. Foto: Marco Favero / Agencia RBS

Tanto Matilde quanto Evylyny objetivam investir ainda mais na profissão que escolheram seguir. Há dois anos, a estudante preparou um espaço em sua casa que utiliza para atender as clientes. É um salão que improvisou para dar mais conforto e atenção para as pessoas que a procuram. Evylyny também pretende lançar uma loja virtual, onde irá vender produtos para cabelos afro. Além disso, pensa em direcionar seus estudos para a área de cosméticos e ligar seus conhecimentos em farmácia com a paixão por cabelos. 

Já Matilde, que até o primeiro semestre de 2020 trabalhava como serviços gerais em uma empresa, deseja participar de cursos profissionalizantes e formações relacionados a cabelos afros. Com a chegada da pandemia, foi demitida e, hoje, depende exclusivamente das tranças para manter a renda de sua casa. Ela conta com a ajuda da filha para a divulgação de seu trabalho nas redes sociais.

Contrate

/// Matilde atende a domicílio, por meio de agendamento de horários. É possível contatá-la pelo Instagram, em @matytrancista, ou pelo telefone (51) 98182-4097. 

/// Evylyny, além de ter seu espaço de trabalho, também atende em domicílio. Para entrar em contato e conferir seu trabalho, acesse o Instagram @belezafroboxbraids_ ou ligue para (51) 98449-4781.

Produção: Émerson Santos

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