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Combate à pandemia04/08/2021 | 19h22Atualizada em 04/08/2021 | 19h22

Debate sobre terceira dose de vacina contra a covid-19 ganha força no mundo; tire suas dúvidas

Brasil deve tomar uma decisão sobre eventual reforço no esquema de imunização ainda neste ano

Debate sobre terceira dose de vacina contra a covid-19 ganha força no mundo; tire suas dúvidas André Ávila / Agencia RBS/Agencia RBS
Governos estão adotando diferentes estratégias de vacinação ao redor do planeta Foto: André Ávila / Agencia RBS / Agencia RBS

Nas últimas semanas, a oferta de uma terceira dose de vacina contra a covid-19 ganhou força no mundo por meio da adoção dessa estratégia em pelo menos uma dezena de países e da realização de um número crescente de estudos sobre o impacto desse reforço. 

Pesquisas preliminares indicam que o acréscimo de outra injeção de CoronaVac ou Pfizer, por exemplo, multiplica a produção de anticorpos, mas cientistas avaliam que ainda é mais importante imunizar um número maior de pessoas com as aplicações já previstas em países como o Brasil do que alterar o plano de combate ao vírus. A Organização Mundial da Saúde (OMS) pediu que os governos adiem a inclusão dessa terceira etapa pelo menos até setembro a fim de permitir uma melhor distribuição dos estoques disponíveis em nível global.

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Diante da ameaça representada pela variante Delta, países como Israel, França e Rússia já adotaram a dose extra para parte da população, como pessoas mais vulneráveis ou com complicações de saúde. Reino Unido e Alemanha anunciaram que vão seguir o mesmo caminho. Entre as razões para esses ajustes estão indícios de redução de eficácia dos imunizantes ao longo do tempo, como sugerido por um estudo chileno recente. 

A pesquisa feita no país sul-americano, onde 65% da população já foi imunizada por completo, indicou que a eficácia da CoronaVac para conter casos sintomáticos variou de 67% em abril para 58,49% agora. A taxa da Pfizer, analisada pela primeira vez, ficou em 87,69%, enquanto estudos internacionais anteriores indicavam índice superior a 90%. 

A imunologista e professora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) Cristina Bonorino, porém, destaca que o ponto fundamental do estudo é ter demonstrado que as vacinas seguem eficientes contra casos graves e óbitos – a CoronaVac manteve 86% de capacidade de evitar mortes, e a Pfizer, 100%.

— Muitos países estão adotando a terceira dose por medo da variante Delta. Mas não são decisões baseadas em racionalidade ou princípios científicos, já que as vacinas seguem protegendo contra casos graves e óbitos. O mais importante, neste momento, ainda é imunizar todo mundo pelo esquema já existente. Se chegarmos ao final do ano sem vacinação em massa, teremos um terceiro ano de pandemia e risco de que novas variantes escapem do sistema imune — analisa Cristina. 

Outro ponto importante do debate internacional é a necessidade de mais estudos para entender quais seriam os prazos adequados para o reforço, qual o resultado de usar um imunizante igual ou diferente do anterior e quem precisaria de fato de uma complementação – quem tomou uma determinada vacina, todos os idosos, pessoas com imunidade baixa ou outro perfil populacional, por exemplo. 

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O Ministério da Saúde já anunciou que vai realizar uma pesquisa em parceria com a Universidade de Oxford até o final do ano para investigar questões como essas, com foco em pessoas que receberam uma dose inicial de CoronaVac. Além disso, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou um estudo da AstraZeneca para avaliar a segurança e a eficácia de uma injeção extra desse produto. 

— Há estudos que vão ocorrer utilizando a mesma vacina ou combinação heteróloga (quando se usa um produto diferente do anterior). Já temos alguns resultados positivos, mas a discussão é quando adotar essa nova estratégia com base em dados científicos. Muitas pessoas ainda não estão imunizadas em países como o Brasil — observa a biomédica Mellanie Fontes-Dutra.

O presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Juarez Cunha, afirma que é fundamental a realização de mais pesquisas para definir qual a melhor estratégia a ser adotada em um futuro próximo. 

— Adotar uma terceira dose no Brasil agora seria precoce. Mas é importantíssimo desenvolver esses estudos para avaliar a necessidade de mais uma aplicação, quanto tempo depois da segunda e para quais pessoas — sustenta Cunha. 

Veja, a seguir, um resumo do que se sabe sobre a estratégia de ampliar o esquema vacinal na luta contra o coronavírus.

Tire suas dúvidas

Que países já adotaram a terceira dose?
Pelo menos Israel, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, França, Rússia, Hungria, República Dominicana e Uruguai incluíram a dose extra em suas estratégias de imunização. Alemanha e Reino Unido anunciaram a intenção de implementar a mesma medida nas próximas semanas. Mas a OMS está solicitando que adiem essas ações até setembro, para permitir que pelo menos 10% da população de cada país no mundo todo seja imunizada diante da escassez global de doses. A oferta de uma terceira aplicação em países com cobertura já avançada ampliaria o desequilíbrio internacional que facilita o caminho para o vírus seguir em circulação.

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Quem está recebendo a aplicação de reforço?
A estratégia tem variado de acordo com o país. Israel, por exemplo, privilegiou idosos e pessoas com comprometimento do sistema imunológico. A França recomenda para transplantados ou quem utiliza medicamentos imunossupressores potentes. A República Dominicana selecionou profissionais de saúde. Já a Rússia admite a aplicação para todos que já receberam a injeção inicial. 

Qual o prazo para o reforço?
Há diferentes prazos adotados atualmente para a oferta desse reforço, variando de quatro semanas a mais de seis meses após a última aplicação, dependendo do país e do imunizante em uso.

Qual a situação no Brasil?
Ainda não há indicação oficial para aplicação de terceira dose, mas estão previstos estudos para que isso seja avaliado. O Ministério da Saúde firmou parceria com a Universidade de Oxford para analisar, até o final do ano, a necessidade de uma terceira dose para quem recebeu CoronaVac, além de testar a complementação utilizando outros produtos como reforço – Janssen, Pfizer e AstraZeneca. A segunda dose deve ter sido aplicada há pelo menos seis meses.

Além disso, a Anvisa autorizou uma pesquisa envolvendo o imunizante da AstraZeneca a ser aplicado entre 11 e 13 meses após a segunda dose. O estudo será desenvolvido em alguns Estados, incluindo o Rio Grande do Sul (com 3 mil voluntários gaúchos, além de Bahia, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e São Paulo), totalizando 10 mil participantes. 

Quando poderia ser adotada a terceira dose no país?
Se o Ministério da Saúde decidir pela oferta de dose extra, isso deve ocorrer ainda neste ano. O estudo que vai começar neste mês envolvendo quem tomou duas doses iniciais de CoronaVac será concluído em novembro, e os resultados devem ajudar na tomada de decisão. Em entrevista após a apresentação desse estudo, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, declarou que “temos de fazer pesquisas para ter respostas e conduzir nosso Programa Nacional de Imunizações”. Por isso, é pouco provável que ocorra uma mudança antes disso.

Quem poderia receber a dose extra?
Ainda não há definição. O estudo do Ministério da Saúde vai focar em quem se vacinou com CoronaVac, então essa seria uma das possibilidades mais fortes. Mas há outras análises em andamento dentro e fora do país envolvendo outros produtos. Também deverão ser levados em conta fatores como a evolução da pandemia no país e o impacto da variante Delta sobre diferentes faixas da população. Pela experiência internacional, também é possível que seja adotado um critério por faixa etária, beneficiando os idosos ou pessoas com alguma vulnerabilidade.

Quais as vantagens de uma terceira dose?
Estudos estão demonstrando que uma aplicação de reforço amplia, por exemplo, a produção de anticorpos neutralizantes (que barram a ligação do vírus com as células) no caso de produtos como a Pfizer e a CoronaVac. Isso compensaria eventuais perdas de eficácia ao longo do tempo, como sugerido por um recente estudo chileno, pelo qual o índice do imunizante chinês contra casos sintomáticos, por exemplo, variou de 67% para 58%. Essa estratégia poderia aumentar o grau de proteção principalmente entre pessoas idosas ou com problemas de imunidade.

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Quais as desvantagens?
No momento, especialistas como a imunologista Cristina Bonorino consideram muito mais importante ampliar a cobertura vacinal do que oferecer uma terceira dose a parte da população. Se o vírus seguir circulando, principalmente entre não vacinados, a pandemia se prolonga e aumenta o risco de surgirem novas variantes capazes de driblar o sistema imune. Em um cenário de escassez de imunizantes, é preciso otimizar a aplicação das doses disponíveis. Além disso, faltam estudos que indiquem de forma mais clara o que representa o aumento observado nos níveis de anticorpos por uma terceira dose. 

— Estudos indicam que a terceira dose aumenta os anticorpos neutralizantes (que evitam a infecção), mas não sabemos ainda o quanto precisa para barrar o vírus. Pode não ser necessário esse aumento. Além disso, o mais importante para uma vacina é proteger de casos graves e mortes, e isso se mantém. Antes de investir recursos públicos em mais uma dose (para quem já tomou), precisamos vacinar toda a população — pondera a imunologista.

O que estudos já concluídos indicam?
Diferentes pesquisas demonstram que uma aplicação extra pode ampliar o nível de anticorpos em três, cinco ou até mais de 10 vezes, dependendo de diferentes fatores, como a vacina envolvida, o prazo de aplicação e a faixa etária. Mas ainda há questões em aberto sobre qual a relação entre esse aumento observado e uma maior proteção de fato na vida real, já que o sistema imunológico humano não se limita aos anticorpos.

Nos EUA, por conta dessas questões, o Centro para o Controle de Doenças divulgou recentemente um comunicado de que as vacinas disponíveis seguem protegendo bem contra as variantes existentes e que as pessoas não precisariam de uma terceira injeção imediatamente. O governo americano pontuou ainda que "não cabe aos laboratórios", como parte interessada em vender seus produtos, definir a necessidade de mais uma injeção.

 
 
 
 
 
 
 
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