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Estreante22/09/2021 | 21h28Atualizada em 22/09/2021 | 21h28

Gari poeta de Canoas lança primeiro livro com recursos próprios

Jonatã Nunes Amarante, 33 anos, parcelou o pagamento de quase R$ 2 mil pela tiragem inicial de cem exemplares de "Poeta do Asfalto"

Gari poeta de Canoas lança primeiro livro com recursos próprios Felix Zucco / Agencia RBS/Agencia RBS
Jonatã Nunes Amarante, 33 anos, trabalha como gari em Canoas e está lançando seu primeiro livro de poemas Foto: Felix Zucco / Agencia RBS / Agencia RBS

O sonho de Jonatã Nunes Amarante, 33 anos, materializou-se em cem cópias. Poeta do Asfalto  — O Tempo É Prioritário reúne versos sobre amor, saudade, solidão, incertezas. Morador de Canoas, na Região Metropolitana, o gari está lançando seu primeiro livro. Com recursos próprios.  

Jonatã foi tema de reportagem do Diário Gaúcho em 1º de fevereiro de 2020. A matéria detalhou sua rotina como coletor de lixo que corre cerca de 30 quilômetros atrás do caminhão todas as noites, de segunda a sábado, há mais de uma década. A atividade cansativa e insalubre não lhe rouba o orgulho: ele adora o que faz. De madrugada, no celular, Jonatã organiza os pensamentos em poemas, compartilhados em vídeos e aúdios nas redes sociais e entre amigos.

Marcos Rogério Vahl do Amaral, securitário de 51 anos, conhece Jonatã da vizinhança, desde que o jovem era pequeno. Pela internet, descobriu as tentativas aventureiras do iniciante pelas linhas poéticas. Questionou-o:  

 — Mano, foi você que escreveu?  

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A resposta positiva os aproximou e aumentou a frequência dos contatos. Apaixonado por livros, Marcos incentiva, tira dúvidas, aconselha. Desejava que o rapaz se encaminhasse bem. “Acompanhei o crescimento literário e também como ser humano do então menino serelepe da quebrada. Que Deus ilumine a sua caminhada na literatura e na vida. Eu tenho fé”, diz um trecho do texto de apresentação que assina na obra.

No início do ano passado, o gari revelou a GZH o desejo de participar de um sarau: declamar em público, espalhar suas ideias. A pandemia que logo se instalou freou a repercussão das aparições na mídia, mas ele não se conformou. Pesquisou no Google sobre as características básicas de um livro: tamanho, número de páginas, preço. Pediu orçamentos, levou sustos — chegaram a lhe apresentar uma estimativa de R$ 5mil para a tiragem inicial. 

CANOAS, RS - 17/09/2021 - Jonatã Nunes Amarante, gari e poeta, está lançando seu primeiro livro: Poeta do Asfalto - O Tempo É Prioriário, com 100 exemplares bancados do próprio bolso. Ele foi capa de um DOC no início do ano passado e agora estamos voltando à história.<!-- NICAID(14892223) -->
Jonatã pagou quase R$ 2 mil do próprio bolso pela tiragem inicial de "Poeta do Asfalto - O Tempo É Prioritário"Foto: Felix Zucco / Agencia RBS

Fechou negócio com a Filos Editora, de São Paulo, por R$ 1.970, sendo uma entrada de R$ 1 mil e o restante parcelado em quatro vezes. Na singela sessão de lançamento, realizada na Associação dos Moradores do Bairro Rio Branco, perto de casa, no último final de semana, a dívida já estava paga.

— Não tinha poupança. Juntei aqui, juntei ali, apertei lá, apertei aqui — conta.  

Nas jornadas recolhendo sacos plásticos pelas ruas dos bairros Niterói e Mathias Velho, Jonatã construiu amizades. A turma do caminhão é saudada pelos residentes, que oferecem água, suco e bate-papo. Em datas festivas, como Páscoa e Natal, os garis costumam ganhar quantias em dinheiro de conhecidos — essas contribuições ajudaram a bancar a edição de Poeta do Asfalto.  

Jonatã imprimiu 50 convites e distribuiu para os mais chegados durante os percursos para jogar o lixo na caçamba. Incentivador do projeto literário, o motorista do caminhão aguardava uns instantes a mais para que o colega abordasse os moradores.

— Humildemente, vim fazer um convite. Tô pra lançar meu primeiro livro. Seria uma grande honra contar com a sua presença — repetia o autor.  

O gari mora em um puxadinho que ajudou a construir no mesmo terreno onde vivem os pais e os irmãos. A família se emocionou quando a caixa de livros foi entregue dias atrás. Abraçaram-se, tiraram fotos.

— É como ver o nascimento do primeiro filho — compara Jonatã, pai de um menino de 12 anos, fruto de um relacionamento encerrado.  

Postado diante da mesa para os autógrafos, o estreante “tremia mais do que vara verde”, na sua descrição. O nervosismo, graceja, não atrapalhou as dedicatórias:

— Minha letra já é feia mesmo!

Foram comercializados 30 exemplares — alguns com pagamento combinado para o mês que vem —, e o escritor se animou para nova encomenda. Deverá receber outra remessa de uma centena de livros nas próximas semanas. O dinheiro que entrou está sendo reinvestido na literatura.  

O gari que monta sua biblioteca com títulos descartados em meio a dejetos planeja concluir o Ensino Médio em 2022, na modalidade Educação de Jovens e Adultos (EJA). Para mais adiante, o plano do homem feito que não ia bem em língua portuguesa na escola, preferindo matemática, é cursar Letras. Quem sabe, Pedagogia também. Pretende se aprimorar para falar bonito em palestras para jovens e “mostrar que o mundo ainda tem esperança”.  

— Não consegui acreditar em tudo isso. Estou querendo amadurecer a ideia desse livro na cabeça, me dando conta do que está acontecendo, para não me perder lá na frente. Depois quero lançar o segundo, o terceiro e não parar.  

Interessados em adquirir Poeta do Asfalto — O Tempo É Prioritário, a R$ 35, podem contatar o autor pelo Instagram, no perfil @nunesdio. Na medida do possível, Jonatã pretende entregar as encomendas pessoalmente, para que os leitores tenham a oportunidade de conhecê-lo. Para fora de Canoas ou Porto Alegre, o escritor pretende enviar os exemplares pelos Correios.  

Poemas de Jonatã Nunes

Somos loucos

Somos a antecipação

de nossos sustos

Somos a concretização

de nossos surtos

Somos a abreviação

de nossos sonhos

Somos loucos e injustos

Em um mundo de sábios

Onde o amor é insanidade nas palavras...

Coração

se acalentou

se trancafiou

se calou

entre rotina e doutrina perdido em armadilha

confiando em palavras se

magoando em suas caças

tudo és tão hereditário

confuso em seus inventários

amargurado em insatisfações

sem juízo

aglomerado em raciocínio

sem razões

sentimentos em um calabouço

pensamentos cheios de preocupações

as emoções soam como um eco

os calafrios no peito cheio de arrependimentos

no fim de tudo

onde só um coração

se magoou

Perdido

Como é

aqui estar

e aqui

não se sentir

como é

aqui estar

e ao mesmo tempo

não se encaixar

Perdido sobre uma ilusão

Como é poder

te ver

mas não poder

te tocar

como é poder

te ver

e não poder

te sentir 

 
 
 
 
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