Opinião
Manoel Soares: "Criado sem pai, o rapaz fumou a primeira pedra com um amigo na frente da escola"
Colunista relata seu encontro com mãe de um viciado em crack
Passando de carro ontem à noite, vi uma senhora com um cobertor branco na ponta de um beco. Ela estava de pé, atenta a quem passava. Como o lugar era um conhecido ponto de conflito do tráfico, achei estranho.
Parei o carro e puxei papo para ver se ela sabia onde estava. Ela era mãe de um usuário de crack de 26 anos que há oito dias não aparecia em casa. Disseram a ela que o viram por ali.
Se ele aparecesse, a chance de ir com ela era mínima. Era mais provável que tirasse dela o cartão do banco ou algum dinheiro, com uma história mórbida de que iriam matá-lo naquela noite.
Confesso que não sei se desejava que ele aparecesse, para acalmar o coração dela, ou que não viesse, pois iria extorqui-la ainda mais. Se ele não estivesse morto por conta das dívidas, estaria contraindo dívidas que poderiam matá-lo. Criado sem pai, o rapaz fumou a primeira pedra com um amigo na frente da escola, me contou a mãe, esticando pescoço para cada magrelo que passava correndo.
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Lento suicídio
O que mais me chocou foi ouvir a mãe dizer que queria morrer depois do filho, pois a pior coisa é não ter quem chore no seu enterro, e ela era a única lágrima que ele teria. Como ela, existem milhares de mulheres que assistem ao suicídio lento de seus filhos.
O que me dói é saber que as chances de a história dela ter um final feliz são pequenas. Mas, se eu a vi naquele beco, Deus também a viu. Se eu não pude fazer nada, Ele, com certeza pode. Então, oremos.
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