Centro Histórico
Rua dos Andradas tem dezenas de lojas vazias e saída de grandes marcas: "Custos não se ajustam à nova realidade"
Comerciantes relatam que movimento caiu na pandemia e não retornou, enquanto aluguéis estão no mesmo patamar. Obras também prejudicaram circulação de clientes
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Palco de manifestações políticas e conhecida por abrigar prédios históricos de Porto Alegre, a Rua dos Andradas é uma das vias mais movimentadas da Capital. O alto fluxo de pedestres é o que abastece o comércio local, já que em boa parte da rua não é permitida a circulação de carros. Contudo, ao menos desde a pandemia, este movimento diminuiu significativamente, contexto agravado pela enchente de maio de 2024, quando a rua foi inundada.
Alguns lojistas relatam queda de mais da metade do faturamento. Os preços dos aluguéis de salas na via, porém, estão no mesmo patamar de 2019, antes da emergência global do coronavírus. Não há dados específicos sobre a saída de lojas da Andradas, mas é perceptível o movimento de grandes marcas que deixaram seus pontos.
Nesta semana, a reportagem de Zero Hora percorreu toda a Rua dos Andradas e contou 46 pontos comerciais no andar térreo vazios. São as conhecidas "lojas de rua". Da orla do Guaíba até a Rua Caldas Júnior, há poucos espaços desocupados. A maioria dos ainda vagos já passa por reformas para abrigar novos negócios. É uma região conhecida pela presença de restaurantes.
Passando o Rua da Praia Shopping, começam a surgir cada vez mais placas de "aluga-se". O primeiro ponto disponível é um deixado pela Paquetá. Na mesma quadra, há mais duas lojas vagas, uma delas deixada por uma franquia d'O Boticário, de perfumes, e outra por uma loja de roupas.
Antes de chegar à Esquina Democrática, no encontro com a Avenida Borges de Medeiros, percebe-se vagos pontos comerciais grandes, cujo aluguel pode ultrapassar os R$ 100 mil. Em um imóvel de destaque, deixado pela Casa Maria, o Banrisul prepara uma nova agência. Por outro lado, o Itaú fechou nos últimos anos suas duas unidades na Andradas.
À medida que se chega ao fim da rua, cresce o número de lojas disponíveis para locação. Apenas na última quadra, são 14 lojas vazias. Uma delas era uma agência da Caixa Econômica Federal.
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Presidente do Sindilojas Porto Alegre, Arcione Piva, diz que o teletrabalho, adotado por empresas públicas e privadas desde a pandemia, tirou boa parte do público que consumia no Centro Histórico.
— Menos movimento significa menor frequência de compras de oportunidade nos comércios de rua, impactando diretamente o faturamento dos lojistas e contribuindo para o enfraquecimento do Centro. Essa situação agrava a dificuldade de manter as operações, pois os custos fixos não se ajustam à nova realidade econômica, pressionando a margem de lucro dos lojistas — diz Piva.
Há 44 anos empreendendo no Centro Histórico, Edemir Simonetti lembra que os imóveis na Rua dos Andradas já foram muito disputados:
— De uns 30 anos para cá, surgiram grandes centros comerciais em outros bairros de Porto Alegre. O comércio online se fortaleceu e desde a pandemia muita gente começou a trabalhar em casa. Então, tirou todo esse povo do Centro. Os funcionários públicos ajudavam muito no nosso faturamento.
O empresário, que também é diretor do Sindicato de Hospedagem e Alimentação de Porto Alegre (Sindha), acredita que o alto número de lojas disponíveis para locação se deve ao preço do aluguel praticado na rua, que é elevado.
— Como os contratos são antigos, o aluguel continua alto. Nos últimos 20 anos, o faturamento dos lojistas na Rua dos Andradas caiu 70% e o preço do aluguel continua alto. Ninguém suporta isso — diz Simonetti.
Dados do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis (Secovi-RS) confirmam que a média do preço do aluguel no Centro está muito próxima do praticado antes da pandemia (veja mais abaixo).
Abertura de empresas
Apesar do número de lojas vazias, a prefeitura de Porto Alegre diz que tem crescido a abertura de empresas na rua. Segundo levantamento da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Eventos, em 2024, foram instalados na Andradas 206 novos empreendimentos, enquanto 45 foram fechados. Os dados indicam que este saldo é positivo desde 2019 (veja no gráfico abaixo).
— Mais de 80% do que abriu é de prestadores de serviços atuando como MEI (microempreendedor individual) ou ME (microempreendedor) — diz o secretário adjunto Filipe Tisbierek.
— É possível que nem todos que fecharam tenham dado baixa, mas o número de empresas cadastradas tem aumentado, isso graças à desburocratização para abrir um negócio desde a Lei da Liberdade Econômica, que extingue a necessidade de alvarás para empreendimentos de baixo risco — acrescenta.
Além das lojas de rua, a Andradas abriga galerias com centenas de salas comerciais, como a Galeria Malcon, a Galeria Chaves e a Andradas Center.
Aluguel de salas
Desde a pandemia, o número de salas disponíveis para locação tem crescido de forma geral em todo o Centro Histórico.
Segundo o Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis (Secovi-RS), ao fim de 2024 havia 1.345 salas comerciais disponíveis para locação no bairro — 6,3% a mais do que no ano anterior. Em 2019, eram 895 salas desocupadas.
— Muitos escritórios que estavam no Centro acabaram sendo transferidos para outras regiões, como o bairro Petrópolis e o 4º Distrito. O Centro tinha muitas atividades culturais, muitos cinemas, e isso trazia bastante gente para o bairro. Recentemente, com a enchente, houve ainda mais queda na movimentação — diz o presidente do Secovi-RS, Moacyr Schukster.
O dado mais atualizado do Secovi-RS mostra que, em 2024, o valor médio cobrado por metro quadrado pelo aluguel de uma sala comercial no Centro era R$ 21,45. Em 2019, antes da pandemia, esta média era de R$ 21,33.
Por estes valores, para uma loja de 200 metros quadrados, por exemplo, seriam cobrados R$ 4,2 mil por mês. Em um espaço maior, de 550 metros quadrados, o preço chegaria a R$ 11,7 mil mensais.
A loja Aliança, de roupas masculinas, está há 102 anos no mesmo ponto na Rua dos Andradas. A família do empresário Álvaro Castro é dona do negócio há 50 anos. Segundo ele, o movimento nunca esteve tão baixo.
— Já vem de antes da pandemia. Tínhamos um bom movimento de clientes, pessoas que trabalhavam nos escritórios e precisavam das nossas roupas. A maioria foi para home office. Advogados que eram meus clientes foram para outros bairros. Meu faturamento caiu 60% de lá para cá — diz o empresário, que faz, em média, 20 vendas por dia.
No entanto, Castro reconhece:
— Ainda é a rua com mais movimento de pedestres na cidade.
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Saída de grandes marcas
A tradição e o fluxo de pessoas sempre atraíram grandes marcas para o comércio da Rua dos Andradas. O fato de que estas empresas tradicionais têm deixado a via é outro indicativo da crise relatada pelos comerciantes.
Renner, Marisa e Riachuelo, de moda, fecharam lojas na rua ainda antes da enchente de maio. A Saraiva, de livros, vive crise financeira e fechou nos últimos anos todas as suas lojas na Capital, incluindo duas na Andradas.
Americanas e Paquetá deixaram seus espaços no Rua da Praia Shopping, junto à entrada do centro comercial pela Andradas. E a Hering, também de moda, deixou seu ponto na Galeria Chaves após o bairro ser inundado no ano passado.
Alguns dos pontos deixados por estas redes já estão ocupados, mas por marcas menos conhecidas. No prédio de quatro andares deixado pela Marisa, inaugurou um restaurante de bufê, que ocupa apenas o primeiro piso. As duas lojas deixadas pela Saraiva ainda estão disponíveis para locação.
Onde ficava uma loja da Riachuelo, inaugurou uma operação da Vonný Cosméticos, de São Paulo, que também terá loja no prédio que era ocupado pelo Banco Safra, junto à Praça da Alfândega. No espaço deixado pela Hering, hoje há uma loja de roupas íntimas para mulheres. Os espaços que eram da Americanas e da Paquetá, no Rua da Praia Shopping, ainda estão vazios.
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De gastronomia, a rede Subway encerrou as atividades em um grande pronto em frente à Praça da Alfândega, que ainda está vazio. A rede Croassonho saiu do térreo do Edifício Santa Cruz (o mais alto de Porto Alegre), sendo substituída por uma loja de moda feminina. Em frente, a Casa Maria fechou uma loja após a enchente, mas a transferiu para outro imóvel na Andradas: o histórico prédio da Livraria do Globo.
Após ser comprada por um grupo de Santa Catarina, a Multisom, de instrumentos musicais, encerrou as duas operações que tinha na Andradas. Recentemente, a Rainha das Noivas, de artigos de cama, mesa e banho, deixou uma loja ali perto. Em seu lugar, abriu outra operação do mesmo segmento, mas de marca menos conhecida.
Obras no Quadrilátero Central
Além de se queixar do preço dos aluguéis na Andradas, o empresário Lucas Kriese diz que as obras do Quadrilátero Central fizeram o faturamento de sua confeitaria cair 30%. Ele é sócio da Marzana, que funciona há mais de 30 anos na rua.
— Para nós, a obra foi tão ruim como a pandemia. Nossos clientes disseram que não vêm mais por causa da poeira e dos buracos. Na pandemia, houve uma comoção geral e o aluguel foi reduzido. Durante as obras, isso não aconteceu, mesmo com queda no faturamento — diz Kriese.
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Há mais de 20 anos no Centro Histórico, o empresário Renato Pereira, dono da rede Belshop, de cosméticos e perfumaria, tem duas lojas na Rua dos Andradas. A obra também impactou diretamente seus negócios, que chegaram a fechar por alguns dias para a execução dos trabalhos.
— O Centro ainda não voltou ao pré-pandemia. A obra impactou, diretamente, o nosso faturamento. É para ter um benefício no futuro, mas no curto prazo afasta o cliente. Em dias de chuva é perigoso, pessoas de outros bairros não vêm aqui — diz o empresário.
De acordo com o secretário de Obras e Infraestrutura, André Flores, a obra não deve mais atrapalhar os comerciantes. Agora, estão sendo feitas vistorias para reparos em pontos onde o serviço não ficou de acordo com o projeto. Nenhum trecho de rua voltará a ser bloqueado, promete Flores.
— Já vistoriamos a Rua Voluntários da Pátria, a Avenida Otávio Rocha e a Rua Uruguai. Precisarão ser trocadas tampas de bueiros, o piso podotátil onde está quebrado e algumas placas com rachaduras. É a etapa do capricho, dos acabamentos — diz Flores.
— Na sequência, vamos começar a instalar lixeiras, bancos e floreiras — acrescenta.
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Com restaurantes e vida noturna, trecho "bomba"
Em uma parte mais arborizada e com prédios residenciais, a Rua dos Andradas ainda está "bombando", dizem frequentadores. No entorno da Casa de Cultura Mario Quintana, existem diversas opções de bares e restaurantes. Ali, a vida noturna é agitada. E durante o dia, quem mora ou trabalha no Centro escolhe negócios dali para almoçar e tomar café.
No final de 2024, a Kopenhagen inaugurou uma loja com cafeteria em uma casa de 1918 na esquina com a Rua João Manoel. Bastante próximo, a Quiero Café fez o mesmo há dois anos. As duas marcas disputam espaço com negócios já estabelecidos na região, como o Rossi, conhecido pela alaminuta, e a tradicional Confeitaria Roma.
— Aqui "bomba" de dia e de noite. Tá sempre cheio, eu almoço nesta lancheria aqui do lado. Esses dias me falaram que vai abrir mais coisas aqui na rua — diz o taxista Rogério Carneiro, que, entre uma corrida e outra, observa o movimento na esquina da Andradas com a João Manoel.
Uma das novidades no trecho é a padaria Pão & Maria, que se estabeleceu em 2022 no Centro Histórico com uma unidade na Rua Duque de Caxias. O negócio é tocado pelo casal Carolina Pereyron e Aky're de Souza. A nova loja ficará em frente à Casa de Cultura Mario Quintana, em um ponto de 100 metros quadrados, com dois andares. O projeto arquitetônico ainda está sendo desenhado.
— A obra começa no mês que vem e pretendemos abrir em maio. Procuramos esse ponto em busca de um novo público. Já atendemos quem mora e trabalha na Duque, e agora buscaremos atender este mesmo perfil, mas nesta parte mais baixa do Centro — diz Carolina.
A nova loja será maior do que a antiga, e por isso a produção de pães será toda feita nela. O espaço deve permitir que sejam feitos novos produtos, como croissants, bolos e sanduíches.
A uma quadra dali, um prédio branco de 595 metros quadrados, com três andares, já passa por obras para abrigar uma galeteria: a Famiglia Lando. O espaço terá lugar para 250 clientes e inaugura em março. O empresário Vilmar Antônio Lando, que já tinha bares na Rua da Praia desde 1985, é quem está à frente da iniciativa.
— O Centro demanda propostas novas. Quando cheguei na Andradas, tinha uma meia dúzia de restaurantes. Agora, está cheio — diz o empresário, que está investindo mais de R$ 1 milhão no novo ponto.
— Sabemos da realidade do Centro, muitos negócios fecharam, pessoas foram trabalhar em home office, mas ainda apostamos no bairro. A gente acredita na retomada do movimento — diz Lando.