Notícias



Homenagem

"Fui discriminado e isolado", diz patrono dos Festejos Farroupilhas 2025 sobre sua trajetória

Aos cem anos, Mário Mattos fala sobre marxismo, tradicionalismo e artes plásticas

31/03/2025 - 05h00min


Frederico Feijó
Frederico Feijó
Enviar E-mail
Frederico Feijó/Agência RBS
Aquarelas de Mário Mattos abordam cenas campeiras.

Aos cem anos, Mário Mattos é um marxista convicto e um tradicionalista devoto. Artista plástico, agrônomo e escritor, é primo de Barbosa Lessa (1929-2002) e integrante do movimento que deu origem ao primeiro Centro de Tradições Gaúchas, o 35 CTG.

Na última semana, foi escolhido como patrono dos Festejos Farroupilhas de 2025 por suas "contribuições significativas à cultura do Estado". Enveredou pelas artes visuais influenciado pelo Clube de Gravura de Bagé. Em suas aquarelas, tematiza o pampa a partir das paisagens e dos animais campeiros. 

— Um homem de cem anos tem que mostrar a sua lucidez — diz Mattos. 

Nunca escondeu o que pensava politicamente. Como consequência, acredita que foi discriminado e isolado. Agora, defende que isso seja deixado para trás: 

— Não interessa às gerações atuais ficar especulando as polêmicas do passado.

Para Mattos, não há contradição entre as convicções que tem e o gauchismo. Cita o historiador inglês Eric Hobsbawm para explicar.

— As tradições são inventadas pela imaginação das pessoas que amam a história, não são vazias e cerebrinas.

Nesta entrevista, concedida em sua chácara no interior de Capão do Leão, na região sul do Rio Grande do Sul, ele relembra seu envolvimento com o movimento tradicionalista, comenta a indicação ao patronato e adianta o que espera dos festejos deste ano.

Leia a entrevista com Mário Mattos

Como o senhor se sente com a escolha para ser o patrono dos Festejos Farroupilhas? 

Sou um animal com cem anos. Então, a minha vida passada é um patrimônio que tem diversas etapas. Em algumas dessas etapas, fui discriminado e isolado. Não interessa denunciar por quem. Porque a gente, passado o tempo, adquire uma isenção maior. E não interessa às gerações atuais ficar especulando as polêmicas do passado. 

Como recebeu a notícia de que seria o patrono deste ano? 

Foi uma surpresa, mas uma surpresa feliz. Aceitei com a condição de que, em algumas ocasiões-chave, me seja dada a oportunidade de falar. Porque um homem de cem anos tem que mostrar a sua lucidez. Caso contrário, ele é pouco mais que um animal zoológico. 

Meu pai não esperava que eu fosse, na juventude, seguir o Luiz Carlos Prestes e o comunismo. Mas aprendeu a me respeitar

O senhor imaginava chegar aos cem anos com essa lucidez e sendo homenageado?  

Não sou autor dos cem anos, sou paciente. O importante foi viver a vida com tudo que ela nos oferece, mas também com tudo que nos tira. 

A perda mais recente que tive foi da minha querida esposa Ruth (Meireles de Mattos), que aos 92, 93 anos estava cumprindo o pacto que fizemos de envelhecer juntos, mas o câncer não permitiu a ela seguir avante. A coitadinha me poupou. Quando teve certeza de que era o câncer, ela simplesmente tirou uma selfie, um retrato, e deixou uma mensagem no computador: "Mário, te amo. Isso é para tu te lembrares de mim".

Como o senhor espera desempenhar o papel de patrono dos Festejos Farroupilhas? 

Agradeço esse título. Recebi o ofício por escrito. Entre as assinaturas está a da Beatriz Araujo, atual secretária da Cultura do Estado. Fiquei muito honrado. As minhas atividades como patrono começam em agosto. Tenho que ir a Caxias do Sul, no acendimento da Chama Crioula. Depois, a Porto Alegre. 

Nada disso seria possível a um homem de cem anos se eu não tivesse uma assistente, pessoas que me ajudassem a ter uma qualidade de vida igual e normal, como se eu tivesse os meus 30, 40 anos. E quero, de público, agradecer essa assistência na pessoa do meu amigo, às vezes mais do que um filho, Roger Crizel, que mora aqui na chácara comigo. 

Essencialmente, posso te dizer que eu sou um artista tradicionalista. A tradição é filha da história, da verdade histórica

Qual é a origem e a motivação da temática do gauchismo nas suas obras como artista plástico? 

Fui muito influenciado na juventude pelo Grupo de Bagé (formado pelos artistas Danúbio Gonçalves, Carlos Scliar, Glauco Rodrigues e Glênio Bianchetti). Em certa ocasião, fundaram o Clube da Gravura em Bagé e começaram a ir em uma fazenda fazer desenhos do natural. Posteriormente, o Carlos Scliar abandonou esse tema e foi para a arte moderna. E eu, que desde menino sonhava sempre com as férias para ir para fora, para andar a cavalo, me criei com essa admiração pela vida campeira. Jurei que jamais abandonaria (a temática). 

Como foi seu início?

Minha primeira exposição individual em Porto Alegre foi bancada por alguns amigos, porque eu morava em Sorocaba (SP). Morei 15 anos lá (a partir de 1964). E a publicidade que foi feita em torno dos amigos que eu tinha na imprensa, que anunciavam a minha próxima exposição, justamente era de continuar e insistir na temática gauchesca. 

Essencialmente, posso te dizer que eu sou um artista tradicionalista. A tradição é filha da história, da verdade histórica. Tem um autor inglês chamado (Eric) Hobsbawn que escreveu o livro A Invenção das Tradições. Lendo o livro, você entende o que ele quis dizer com isso. Não é que as tradições sejam uma invenção vazia e apenas cerebrina, não. As tradições são inventadas pela imaginação das pessoas que amam a história.

Tenho uma filha que tem vocação para a arte, mas pendeu para a arte moderna. Eu respeito. Arte é arte, seja moderna ou surrealista

Qual a sua visão sobre a arte atual no Rio Grande do Sul? 

A arte brasileira, com o filme Ainda Estou Aqui, nos enche de orgulho. A inteligência brasileira é uma das mais destacadas do mundo. É um direito de cada pessoa escolher a corrente de que mais gosta. Tenho uma filha que tem vocação para a arte, mas pendeu para a arte moderna. Eu respeito. Arte é arte, seja moderna ou surrealista. 

Como foi sua participação no movimento tradicionalista?

Naquela época, eu estava em Porto Alegre, embora sendo morador de Pelotas, e fui convidado pelo meu amigo de infância, o Barbosa Lessa, para uma reunião na sede da Associação Riograndense de Imprensa. A ideia era criar um movimento tradicionalista, que não existia. Eu estava entusiasmado com essa ideia do Lessa. Discutimos, inclusive demos nome ao primeiro Centro de Tradições Gaúchas, o 35 CTG. O tradicionalismo sempre me encantou.

Como é a relação com sua família?  

Da família do meu pai só resta um irmão vivo. Já nem falo do meu pai. Ele chegou a ser professor na Universidade de Pelotas e foi combatente da Revolução de 1923, na força do Zeca Netto (líder maragato). Dei a ele desgostos e gostos também. Meu pai não esperava que eu fosse, na juventude, seguir o Luiz Carlos Prestes e o comunismo

Mas o meu pai aprendeu a me respeitar. E chegou a me convidar para ficar na fazenda com ele, quando provei a ele a minha capacidade medindo terra. Quando o governo me negou emprego como agrônomo, fui fazer topografia e meu pai viu que eu sabia medir terra e comandar homens. Agradeci muito e tive de contrariar. Fui para Porto Alegre ser preso e apanhar da polícia.  

O tradicionalismo sempre me encantou

O senhor sente alguma mágoa com o Movimento Tradicionalista Gaúcho?

Me sinto valorizado pelo MTG hoje. No passado recente, sofri discriminação. Talvez por esse fato de ter sido comunista, pelas costas o pessoal me isolava. Mas nunca deixei de colaborar. 

Como o senhor vê hoje a política dentro do MTG? 

Considero que o MTG está em transição. Isso é saudável, altamente saudável. Essa transição se deve à juventude do MTG, que começou a questionar um MTG que realizava congressos que muitas vezes eram uma farsa, porque fugiam da democracia como o diabo foge da cruz. Mas isso não está acontecendo presentemente. 

* Colaborou Guilherme Freling


MAIS SOBRE

Últimas Notícias