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Em busca do sonho

Violinista da Lomba do Pinheiro faz vaquinha para comprar instrumento

História de Mariana Bento é exemplo do poder de transformação dos projetos sociais

20/03/2025 - 05h00min

Atualizada em: 20/03/2025 - 05h00min


Diário Gaúcho
Diário Gaúcho
Mateus Bruxel/Agencia RBS
Estudante sempre usou violinos emprestados e agora quer um próprio para se desenvolver.

Desde que começou a estudar o instrumento, em 2019, Mariana Bento Alves nunca teve um violino para chamar de seu. Aos 20 anos, os três que usou até hoje foram emprestados dos projetos sociais de que fez parte ou de sua professora.

Agora, a jovem criou uma vaquinha para comprar um violino e seguir o sonho de um bacharelado em música. A meta de arrecadação da vaquinha é de R$ 15 mil.

— Ao longo da nossa evolução, a gente precisa de instrumentos que nos acompanhem, mas instrumentos de corda são muito caros — diz a musicista.

— Além disso, eu gostaria de tentar algo fora do Estado, mas eu me sinto limitada pelo fato de o instrumento não ser meu — acrescenta.

O recurso arrecadado servirá para pagar um violino melhor, que possa acompanhá-la por uma futura graduação e adiante.

A história de moradora da Lomba do Pinheiro, na zona leste da Capital, é um exemplo do poder de transformação dos projetos sociais. O início de seus estudos foi na Orquestra São Francisco, uma parceria do Centro de Promoção da Criança e do Adolescente (CPCA) com a Orquestra Villa-Lobos.

Aos 14 anos, ela passava por problemas familiares e estava com um quadro depressivo. Sua mãe, Lisiane Bento Alves, sugeriu que ela buscasse um hobby ou uma atividade que pudesse ajudá-la.

— Falei para minha mãe que tinha vontade de aprender violino. Só que isso era uma coisa distante, que eu queria quando criança e até tinha esquecido. Na mesma semana, ela conversou com a coordenadora e soube que as inscrições estavam abertas — conta.

Transformação 

Segundo Mariana, o primeiro ano de aulas foi suficiente para transformar sua vida.

— Hoje em dia, quando eu penso naquela menina de 14 anos, em um momento depressivo, eu não me reconheço. Não são mais os meus pensamentos. Fico me perguntando como pude viver tanto tempo sem tocar um instrumento — afirma.

Criada pela mãe, que trabalha como auxiliar de farmácia em um hospital, ela enfatiza o papel que projetos sociais têm nas periferias.

— A música clássica é muito elitizada. Eu nunca havia ido a um teatro. Para mim, ir a um concerto, uma peça, um teatro, era caro. E ainda é. Mas existem alternativas, e esses projetos sociais oferecem uma oportunidade de conhecer isso — comenta Mariana.

Muito mais do que um hobby

Mariana se deu conta de que tinha descoberto uma nova oportunidade de vida no concerto de fim de ano da Orquestra São Francisco, em 2019. Os iniciantes em seus instrumentos foram convidados para tocar duas pequenas peças.

Eu estava tocando quatro notas, mas eu estava nas nuvens. Tive certeza de que queria me empenhar mais no próximo ano — relembra.

A expectativa, porém, precisou ser adiada. Com a pandemia de covid-19, a jovem parou de estudar música. Ficou um ano e meio com o violino guardado no estojo e a paixão adormecida.

Apenas em 2021 ela retomou o caminho dos sons e partituras. Entrou em contato com a antiga coordenadora do projeto em que teve aulas de instrumento, Keliezy Severo, e recebeu um convite para participar de outra iniciativa social: a Orquestra Jovem do Theatro São Pedro (OJTSP). Desde então, ela relata, sua vida mudou:  

— Entrar na Orquestra Jovem foi muito diferente. Começou a ser algo maior do que só um hobby. Eu tinha mais aulas e passei a me dedicar muito mais.  

Hoje, Mariana cursa história na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mas seu sonho é entrar no bacharelado em violino da instituição e seguir carreira artística. 

Representatividade

Além de se inserir em um meio que ela mesma via como "elitizado", o da música clássica, Mariana também destaca o fato de ser uma mulher negra buscando seu espaço em um ambiente majoritariamente branco e masculino.

A gente tem pessoas pretas na música clássica, mas é muito pouco —pontua.

A estudante se esforça para buscar referências negras. Ela cita os violinistas Nathan Amaral e Tais Soares, do sudeste do país. A mais importante para ela, contudo, é daqui: 

A minha referência maior é a professora Keli (Keliezy Severo), que veio do mesmo bairro que eu, começou em um projeto social também e hoje está finalizando o mestrado em flauta doce na UFRGS. Não tem pessoa que mais inspire aqui no Estado do que a Keli.

Como ajudar

Para fazer uma doação, você pode acessar a vaquinha aqui.


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