Retratos da Vida
"Com um pedaço de pano, a gente sabe fazer ouro": ONG ensina costura de graça em Alvorada
Projeto social faz das máquinas, agulhas e linhas ferramentas de transformação no bairro Maria Regina.


Seja com linha e agulha, ou com máquina — doméstica ou industrial — costurar é um ofício que também pode ser terapia. Foi o que pensou Diego Maidana ao criar a ONG Costurando Alvorada, há três anos. Ele já trabalhava na área e, ouvindo relatos de pessoas da comunidade que queriam conquistar sua independência financeira, decidiu unir a paixão pelos carreteis à solidariedade. No último dia 8, o projeto teve sua nova sede inaugurada, na Avenida Salomé, no bairro Maria Regina.
Aulas de costura gratuitas são divididas em dois módulos e ocorrem todos os dias, em três turnos — manhã, tarde e noite. Para participar, basta entrar em contato com a ONG, porque sempre há espaço para mais um, garante o professor voluntário Fagner dos Santos, 45 anos:
— Aqui é que nem coração de mãe.
Fagner era técnico de enfermagem e largou a profissão para se dedicar à costura, após fazer o curso da ONG. Hoje, trabalha em suas produções e em um ateliê, além de passar toda sua expertise para os alunos e alunas da iniciativa.
— Eu gosto de trabalhar com pessoas, que foi o que me levou para a enfermagem, e aqui não é muito diferente — conta Fagner.
Ele é só um dos exemplos de pessoas que encontraram na costura um novo ofício após as aulas gratuitas da ação. Diego é testemunha da criação de diversos negócios, incluindo familiares:
— Temos um ex-aluno que criou uma empresa em que o filho cuida da parte administrativa e ele e a esposa da produção. E eles já levaram mais dois alunos da Costurando para trabalhar com eles.
Novos negócios
Quando a reportagem visitou a sede da ONG, na quarta-feira à tarde, a voz de Fagner elucidava dúvidas e guiava cerca de 20 mulheres aos conhecimentos do primeiro módulo. Os cadernos postos à mesa se misturavam aos retalhos de tecido e à vontade de aprender. Gislaine Kieffer, 51 anos, era uma das pessoas que escutava atentamente as explicações. Ela já tinha familiaridade com a área, já que sua avó era costureira, e decidiu iniciar o curso no ano passado com o incentivo da sogra. Com auxílio da terapia da costura, afirma ter se curado de uma depressão.
— Aprendi a colocar zíper, fazer ajustes. Eu estava sofrendo de depressão, não tinha energia, estava tomando remédio, e entrar na Costurando foi muito bom. Eu parei de tomar remédio por causa da costura — conta.

Depois da pausa que o projeto teve na enchente, em que virou ponto de distribuição de doações, Gislaine voltou às aulas e já colocou uma plaquinha oferecendo seus serviços em frente à sua casa.
— Ainda não tenho muitos clientes, mas vou fazendo. De vez em quando aparece. Tô com medo, né? Mas “vambora”! — relata a costureira.
Todo processo é feito em conjunto
A nova sede da ONG foi construída em um espaço cedido pela família de Diego. Em abril, o local foi revitalizado e expandido com a ajuda da comunidade. Aliás, toda a manutenção da Costurando Alvorada é feita assim, a muitas mãos. Empresas doam sobras de tecidos e voluntários realizam a reparação das máquinas de costura. Tudo é comunitário, se orgulha o idealizador:
— A gente começou do zero. Desde as lajotas, foi tudo doado pela comunidade. Pelos alunos, amigos e parceiros.

Mas quem botou a mão na massa — literalmente — e fez quase toda a revitalização do espaço foi Diego e a voluntária Clarice Moraes, 62 anos. Durante os quase quatro meses de produção, eles descobriram que tinham talento para outra área além da costura: a construção civil, descrevem entre risadas.
— Nós fizemos um banheiro. Eu nunca tinha assentado um tijolo na minha vida — diz Diego.
— Eu disse: ‘eu sei virar massa (corrida), eu faço lá em casa’. Daí eu fazia a massa, trazia para ele ir botando nos tijolos — completa Clarice.
E agora, com a finalização da obra, o projeto continua recebendo e costurando um novo futuro para a comunidade todos os dias, descreve o idealizador, que viu seu sonho virar realidade:
— Com um pedaço de pano, a gente sabe fazer ouro!
*Produção: Elisa Heinski