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RETRATOS DA VIDA

Abraço apertado, amor sem fim

Edila e Ataliba celebram 70 anos de casamento sustentados pelo trabalho, pela coragem e pela escolha diária

13/02/2026 - 12h37min


Henrique Moreira
Henrique Moreira
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Bruno Todeschini/Agencia RBS
Edila tem 96 anos e Ataliba está prestes a completar 101.

Casados desde 28 de janeiro de 1956, Edila Ferreira de Souza e Ataliba Soares de Souza completaram 70 anos de casamento neste ano e somam uma vida de trabalho, mudanças e a criação de cinco filhos. Entre Glorinha, onde se conheceram, e Cachoeirinha, onde fixaram casa, aprenderam a atravessar o tempo em silêncio, com uma espécie de fidelidade ao cotidiano. Hoje, ela tem 96 anos. Ele, que tem 100 anos e vai completar 101 no dia 12 de agosto, segue ao lado dela, no mesmo endereço, no mesmo gesto simples de ficar. No dia a dia, celebram com cuidado: família, conversa e mãos dadas no sofá. 

Esta história está na memória deles – e é nos detalhes de quem observa que é possível entender: na vida que pulsa, no passo mais lento até os cômodos, no olhar que dispensa frases. Não são memórias organizadas em papéis e registros

Se conheceram nos bailes de Glorinha. A juventude cabia em música alta, roupas e sapatos. Não houve arrebate. Houve cuidado. Foram quatro anos de namoro até o casamento, porque Ataliba acreditava que amor também precisava de chão firme, de casa possível e de pão garantido

– Namoramos quatro anos. Sempre dizia que, para casar, tinha que ter condição. Amor sozinho não sustenta família. Eu queria ter como pagar aluguel, depois fazer uma casa. Casar sem ter onde morar não era certo – afirma Ataliba. 

Ele começou a trabalhar cedo demais – e pouco teve infância. Aos 10 anos, já ajudava na agricultura. Trabalhou até os 24, lidando com a terra, o sol e o cansaço. Depois vieram o comércio, a fábrica, os turnos longos. Um dia, o corpo cobrou a conta: coluna torta, quadril doendo. A vida pediu mudança, e ele mudou. 

Edila nunca esteve à sombra dessa travessia. Trabalhou fora quando isso ainda causava espanto. Deu aula, atuou em escola, passou por empresa e voltou para casa para continuar trabalhando ali. Criou os filhos, sustentou o cotidiano e carregou, muitas vezes, o que não aparece na foto: o esforço diário de manter tudo de pé

– Eu trabalhava fora, dei aula, trabalhei em escola, depois em empresa. Saía cedo, voltava, tinha filhos e casa para cuidar. Não era fácil. Aguentei muito desaforo. Teve gente que dizia que eu não devia trabalhar. Mas eu tinha feito concurso, fui chamada, precisava ir – diz Edila.



Travessia a dois

Casaram-se em uma igreja em Glorinha e, no mesmo dia, partiram para Cachoeirinha. Primeiro, para morar de aluguel. Depois, uma casa em uma rua que ainda era campo. Quase tudo parecia provisório, menos a decisão de ficar. Edila enfrentou jornadas duplas e comentários atravessados, como se o trabalho dela precisasse de licença

– Ela trabalhou muito. Criou cinco filhos e ainda trabalhava fora. Se não fosse ela, muita coisa não tinha ficado de pé. Eu sempre digo isso. A casa se manteve porque nós dois seguramos – reconhece Ataliba. 

Ela engoliu desaforos como quem engole o choro para seguir. Sustentar, ali, não era só pagar contas: era impedir que a vida desabasse quando parecia prestes a cair. 

Criaram os cinco filhos em meio a dificuldades, mudanças de trabalho e incertezas. Aprenderam que amor duradouro não é ausência de conflito, mas compromisso com a travessia. Houve dias em que desistir parecia mais fácil. Houve silêncio, mas houve escolha. 

– A gente decidiu não viver brigando. Não quer dizer que não tinha erro. Tinha. Mas, se errava, pedia perdão. Viver brigando não leva a nada. Casamento é compromisso, não é disputa – afirma Ataliba. 

Hoje, sentados na mesma casa onde envelheceram juntos, Edila olha para trás sem romantizar a caminhada, mas com orgulho do trajeto. Para ela, o segredo de um casamento longo nunca foi abdicação, e sim parceria – estar firme na decisão de permanecer quando ir embora parecia solução. 

– Casamento não é ir embora por qualquer coisa. É dar a volta por cima. Hoje em dia, por qualquer coisa a pessoa vai embora. A gente não. A gente ficou. E ficou porque quis – diz Edila. 

Questionados sobre o conselho que deixariam às novas gerações, eles descartam promessas fáceis e apontam a paciência, o cuidado cotidiano e o trabalho compartilhado.  

– O amor não acaba. O que acaba é a paciência. E essa a gente tem que aprender a ter. Entregar a vida a Deus, respeitar o outro, perdoar. Não tem outro caminho – afirma Ataliba. 

Edila resume a vida que construiu sem alarde em palavras que soam como música antiga

– É um abraço apertado… é um amor sem fim – canta, um trecho de Beijinho Doce, olhando para o homem que ama há mais de 70 anos. 

Ataliba escuta em silêncio, olhando para ela. Centenário, permanece ao lado de Edila como esteve desde o início: inteiro no gesto simples e diário de ficar e amar.


* Com orientação e supervisão de Lis Aline Silveira 






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