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Gabriel Job, o cara que uniu rap e audiovisual para construir o seu negócio

Nas sextas-feiras, o colunista Émerson Santos escreve sobre educação, cultura, inovação e toda a diversidade presente nas comunidades

27/02/2026 - 09h00min


Émerson Santos
Émerson Santos
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Granja Films/Divulgação
Job está à frente da Granja Films. Ele também integra a equipe do Museu do Hip Hop.

A trajetória de Gabriel Job é daquelas que viram inspiração para a sua comunidade. Dá para dizer que ele, criado na periferia de Sapucaia do Sul, é hoje um dos nomes de destaque no audiovisual gaúcho. Começou com trabalhos pontuais, acompanhando o pai, até lançar a Granja Films, marca forte do setor e que também tem se consolidado como um espaço de formação, focado em impacto social. 

— Sempre foi uma parada muito elitizada. Não era o que condizia com a minha realidade, saca? Eu vim da Cohab, um conjunto habitacional onde a gente vivia de pé descalço. A gente não é da realidade da elite. E eu sempre preguei o contrário, tá ligado? Como a gente consegue fazer o audiovisual não elitizado, o audiovisual comunitário, acessível pra todos — conta. 

Foi em 2015 que ele teve o primeiro contato com a área. Seu pai, que não tinha os próprios equipamentos, alugava câmeras e materiais de iluminação para trabalhar em casamentos e outros eventos do tipo. E Job passou a acompanhá-lo. 

No ano seguinte, deu outro passo que seria fundamental para o que viria pela frente. Com amigos, lançou um grupo de rap. Conforme investia no projeto musical, Gabriel sentiu a necessidade de fazer os próprios videoclipes, já que contratar produtoras seria caro: 

— Pensei, tenho ali os conhecimentos que eu aprendi com meu pai, mas não tinha equipamento ainda. Como é que a gente pode fazer?  

A resposta foi contar com o espírito comunitário que é próprio das periferias. Conversou com parceiros, pegou celulares emprestados e começou as gravações. Deu tão certo que outros amigos artistas começaram a pedir para ele fazer seus clipes: 

— Isso também ajudou a incentivar uma cena underground do rap que estava se iniciando aqui na Região Metropolitana.   

Profissionalizar

Gabriel reforça o papel decisivo de uma figura que marcou sua trajetória, Rafa Rafuagi. Nessas caminhadas que fazia, conheceu a galera da Associação da Cultura Hip-Hop de Esteio. É nesse ponto que o seu trabalho tem uma virada. Ele começa a entender como profissionalizar de fato o que fazia. 

A produtora, que antes se chamava Pixo Films, recebe o nome de Granja Films, ganha novo logo, é formalizada e o negócio passa a ser impulsionado. Com essas novas conexões que fez dentro do movimento, entrou em um circuito de festivais e as oportunidades foram surgindo. Trabalhou no POA Festival, Rap in Cena, Planeta Atlântida e assim foi crescendo.

— Pra gente que tinha começado em 2015, curtindo e querendo fazer rap, e acaba em um palco filmando o Filipe Ret, os Racionais, que são uma galera referência pra gente, isso para nós já era ter vencido.

Olhar atento para o impacto social

Cristiano Rangel/Divulgação
Conheceu também Felipe Germano, o Felp, que veio a se tornar seu parceiro na Granja.

Até então, Job fazia a maior parte dos seus trabalhos sozinho, chegando a gravar 20 clipes por mês. Com a escalada do negócio, entendeu que precisava ampliar a equipe. Ou seja, sua empresa também passou a gerar oportunidades de emprego para outras pessoas, por meio do contrato de videomakers e equipes de apoio. Conheceu também Felipe Germano, o Felp, que veio a se tornar seu parceiro na Granja.

E o olhar para o social é uma marca que se percebe no modo como o negócio foi construído. Aquele desejo de fazer do audiovisual um mercado não elitizado aparece na relação com os clientes. 

— Muitas vezes, é o cara que trabalha CLT o mês inteiro, ganha o seu salário mínimo no final do mês, em que ele investe quase todo o salário em uma produção — pontua. 

Assim, construiu um sistema de confiança com os artistas que os contratavam: valores acessíveis, podendo ser pagos a prazo e sem a necessidade de cartões, apenas na palavra. 

— Conforme a gente ia fazendo os clipes, o cliente ia acertando comigo — explica.

Formação

A troca de experiências e aprendizados com colegas da área foi importante para o desenvolvimento de seu negócio. E isso é algo que hoje a Granja leva como uma de suas missões. No início de 2025, lançaram uma oficina de introdução ao audiovisual que já passou por diferentes cidades gaúchas. 

E agora, em parceria com o Hub Atividade, espaço de inovação que será lançado na Capital, eles também terão um laboratório de formação. A ideia é que pessoas de qualquer idade possam entrar lá sem nenhum conhecimento e sair como profissionais.


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