Haja paciência!
"É muito cansativo": motoristas passam mais de cinco dias por ano presos no trânsito de Porto Alegre, aponta estudo
Dados do Índice de Tráfego TomTom revelam que Capital teve o segundo maior nível médio de congestionamento do país em 2025


Motoristas ou passageiros, quem enfrenta o trânsito de Porto Alegre diariamente tem perdido bastante tempo em deslocamentos. Uma pesquisa recente mostrou que o porto-alegrense perdeu 125 horas em engarrafamentos nos horários de pico em 2025, o equivalente a cinco dias e cinco horas.
O resultado foi obtido por meio de uma base de dados da TomTom, empresa holandesa fabricante de sistemas de navegação para automóveis. O acumulado de horas perdidas no trânsito da Capital em 2025 bateu recorde na série histórica recente, chegando a duas horas e 33 minutos a mais do que em 2024.
Chamado de Índice de Tráfego TomTom, o cálculo é feito a partir de dados de GPS anônimos e velocidades reais de condução registradas ao longo de bilhões de quilômetros em dezenas de capitais e grandes cidades do mundo todo.
A taxa de congestionamento aponta, em média, quanto tempo a mais uma pessoa leva para se deslocar na cidade em horários de pico em relação a um período com baixo movimento. O método é chamado por especialistas de "Travel Time Index" (índice de tempo de viagem, em português).
O índice de Porto Alegre aponta que o nível médio de congestionamento do ano passado chegou a 59,6% — o segundo maior do Brasil. Segundo o estudo, em 15 minutos, foi possível percorrer uma distância média de 5,6 quilômetros. Com isso, o tempo médio de viagem para um percurso de 10 quilômetros foi de aproximadamente 26 minutos, com uma velocidade média de 18 km/h.
O sistema monitora o fluxo diário das ruas e avenidas de Porto Alegre, hora a hora. Em 2025, o dia 10 de abril (uma quinta-feira) foi considerado o pior dia para trafegar na Capital, chegando a um nível médio de congestionamento de 96%. Às 18h, em pleno horário de pico, esse mesmo nível chegou a atingir 192%. Nessa faixa de horário, foi possível se locomover por apenas três quilômetros em um intervalo de 15 minutos.
O índice de tráfego de Porto Alegre aparece atrás apenas de Recife, que possui uma taxa de 64,7%. Comparado com outras cidades do mundo, o desempenho da capital gaúcha se aproxima do observado na capital da Índia, tradicionalmente conhecida pelo trânsito intenso. Nova Delhi tem índice de 60,2%. Metrópoles como Los Angeles, nos Estados Unidos, e Jacarta, na Indonésia, também apresentam números semelhantes.
Isso não significa necessariamente que Porto Alegre tenha um trânsito pior que cidades ranqueadas mais abaixo. São Paulo, por exemplo, possui um índice inferior (58,5%), mas o motorista paulistano perdeu sete horas a mais com congestionamentos do que o porto-alegrense. Isso porque o índice é calculado sobre o tempo a ser percorrido com um cenário de maior fluidez. Ou seja, em São Paulo o tempo para se deslocar fora do horário de pico é maior do que em Porto Alegre.
Na prática, o índice revela o que os motoristas percebem diariamente: o movimento de carros na cidade é muito concentrado em períodos específicos do dia.
Na manhã, 40 minutos no trânsito

Um dos horários em que o congestionamento se agrava é no início da manhã. O técnico em informática Marcelo Porciuncula faz, há 20 anos, o mesmo trajeto: sai da sua casa na Rua Costa Lima, bairro Teresópolis, na Zona Sul, e vai até seu local de trabalho, na Avenida Alberto Pasqualini, Jardim Sabará, na Zona Norte.
O caminho de 12 quilômetros foi feito em 40 minutos na manhã desta terça-feira (26), entre 7h20min e 8h. Segundo Marcelo, em um horário de menor movimento, é possível fazer o mesmo trajeto com a metade do tempo.
— Hoje foi o pior dia. Com 40 minutos, já chego cansado. Você tem que ter atenção no pare e arranca, isso quando não tem nenhum acidente nesse percurso — afirma, ao chegar no destino.
Dos 40 minutos, 16 foram perdidos para percorrer um trecho de dois quilômetros, entre o cruzamento da Costa Lima com a Avenida Teresópolis e na Aparício Borges com a Oscar Pereira. As sinaleiras em cruzamentos mais movimentados represam o trânsito, obrigando o motorista a fazer o chamado "arranca e para".
— Isso aqui não acontecia antes de maio do ano passado, quando passou a alterar o sistema de sinaleiras nessa região — reclama.
Outro gargalo enfrentado por Marcelo fica no cruzamento da Protásio Alves com a Saturnino de Brito. Para fazer a conversão em direção à Zona Norte, foi necessário aguardar quatro minutos, já que os tempos da sinaleira favorecem quem está na Protásio ou quem vem da Saturnino para pegar a avenida em direção ao centro.
Mesmo assim, esse trajeto segue sendo a melhor opção, já que as rotas alternativas também apresentam desafios:
— Como aqui já está cheio, esses caminhos alternativos também já estão, só que são caminhos que se para e arranca por muitas quadras. As sinaleiras são mais demoradas por serem vias de menos movimento. Então, o tempo acaba sendo o mesmo.
De tarde, uma hora e meia ao volante

Aos finais de tarde, a faixa das 18h, sobretudo, é de congestionamentos. Essa é justamente a hora em que a técnica em enfermagem Patrícia da Silveira precisa dirigir para voltar para casa. Patrícia trabalha no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, mas mora em um bairro de Alvorada no limite com a Capital, a uma distância de pouco mais de 15 quilômetros entre um e outro local. Por isso, acaba enfrentando diariamente as longas filas.
— Independente do dia, e até da hora, se é 17h, 17h30min ou 18h. O deslocamento é de, no mínimo, uma hora — relata a técnica em enfermagem.
A reportagem de Zero Hora pegou carona com Patrícia em uma quarta-feira, considerado o dia de maior pico de movimento do trânsito das 18h em Porto Alegre, segundo a pesquisa. Ao todo, a viagem de volta para a casa da entrevistada demorou uma hora e 30 minutos.
Para se ter ideia da dimensão do problema, Patrícia tomou todo o trajeto de volta pela Avenida Protásio Alves, seguindo depois pela Estrada Caminho do Meio. Ao longo dessa rota, foi possível identificar alguns gargalos.
Um deles, por exemplo, foi logo na saída: para conseguir acessar a Protásio vindo da Rua Ramiro Barcelos, foram mais de 10 minutos. Isso apenas por conta de uma longa fila na sinaleira entre as duas vias.
Mas, além das áreas que travam mais, há sempre o inesperado, que pode piorar as coisas. Isso aconteceu no trajeto final de Porto Alegre, quase chegando em Alvorada. Devido a um acidente, o começo do Caminho do Meio ficou em meia-pista, fluindo com desvio. O resultado: cerca de meia hora dispensada apenas para andar um trecho de um quilômetro entre as avenidas Manoel Elias e Martim Félix Berta.
Para evitar esse tipo de transtorno, Patrícia conta que sempre se mantém atenta ao GPS.
— Ele consegue me dar alguns caminhos em que não tem "tranqueira". Igual, eu levo a mesma uma hora, mas consigo não ficar parada no trânsito. Indo por dentro dos bairros, não fico no "para e arranca" — explica.
O caminho é longo na extensão e na demora. Patrícia sai de dia do trabalho e chega em casa de noite. Vê, todos os dias, o sol se pondo pela janela do retrovisor. E assim, a rotina se torna extenuante:
— É muito cansativo. São duas horas por dia perdidas no trânsito. E ainda pior por estar dirigindo, então tem que estar sempre atento. Se houvesse um transporte público seguro e de qualidade, poderia ir de ônibus, descansando, lendo um livro. Mas não temos essa opção.

Qual a avaliação da EPTC e de especialistas
Para Fagner Sutel de Moura, chefe de equipe de Simulação e Experimentos de Tráfego da Gerência de Desenvolvimento e Inovação da EPTC, o relatório da Tomtom revela que a cidade apresenta boas condições de fluxo na maior parte do dia.
— Esse índice pode, ou dizer que eu tenho um problema estrutural, ou ele pode dizer que eu tenho margem para melhorar a minha condição de tráfego. O que a gente vê é que eu poderia dissolver esse volume do pico, alargar esse pico para que ele não seja tão intenso. Se eu tenho fluidez fora dos horários de pico, é porque eu tenho capacidade suficiente — afirma.
Sobre a sincronização dos semáforos, a empresa afirma que já fez a substituição da rede em dois terços dos cruzamentos da Capital. Na prática, é trocada a conexão por fio por uma sem fio, o que reduz a instabilidade na comunicação entre as sinaleiras. Está em andamento o processo para contratar a empresa que fará a substituição dos restantes, que incluem avenidas importantes como Ipiranga, Protásio Alves e Osvaldo Aranha.
— Elas vão se manter mais estáveis no sincronismo. Consequentemente, a fluidez vai melhorar a falta de sincronismo. Congestionamento existe e vai continuar existindo, porque está atrelado à capacidade da via. Mas, nesses dois terços em que a gente já trocou a tecnologia, as reclamações de falta de sincronismo caíram bastante — diz Vanderlei Trevisan, chefe de Programação e Operação Semafórica da EPTC.
Apesar de o problema ter uma explicação simples, a resolução dele é complexa. É o que aponta o professor do Laboratório de Sistemas de Transportes (Lastran) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Fernando Michel:
— O principal problema é a capacidade viária. Ela tem uma capacidade que não é infinita. Então, quanto maior o número de carros, maiores vão ser os congestionamentos.
O crescimento dos aplicativos de transporte é apontado como um dos fatores que agravou o cenário. Segundo o especialista, o impacto é maior especialmente nos horários de pico, como o das 18h, quando motoristas, passageiros e pedestres disputam o mesmo espaço nas vias já saturadas.
Semáforos inteligentes como saída a médio prazo

Entre as alternativas possíveis, o professor destaca a modernização dos semáforos como uma medida que poderia ser implementada a médio prazo, ou seja, em uma ação que não é imediata, mas que também não demoraria tanto para fazer efeito.
A ideia seria inserir sistemas que ajustem os tempos das sinaleiras nos cruzamentos da Capital em tempo real, com auxílio de inteligência artificial.
— O volume de tráfego mudou e isso tem que mudar junto — resume o professor.
Para o longo prazo, o professor defende mudanças estruturais mais profundas, ou pelo menos a discussão sobre elas: reorganização do transporte coletivo e dos corredores de ônibus, integração metropolitana e, em pontos críticos, a construção de viadutos e trincheiras para eliminar cruzamentos problemáticos.
O próprio histórico da cidade, segundo Michel, vai na contramão desse caminho, uma vez que obras viárias previstas para a Copa do Mundo de 2014 foram concluídas anos depois, e outras sequer saíram do papel. A conclusão do pesquisador é de que a população precisa seguir cobrando políticas que pensem no todo:
— É um projeto de cidade. É um projeto que tem que durar, e o porto-alegrense tem que entender isso e tem que batalhar por isso.