Papo Reto
Manoel Soares: "Pimenta na ferida"
Colunista escreve no Diário Gaúcho aos sábados


Não podemos ser moldados pelas urgências. Sei que ler isso é algo que chega a dar aquela raivinha no coração, afinal, quem sabe de nossos problemas somos nós, e aí chega um maluco no jornal dizendo que, quando o bicho pega, temos que olhar para o outro lado.
Mas é importante entender que tudo o que sentimos em relação ao que nos acontece está ligado ao que temos de memória do que já aconteceu, ou é baseado em nossa imaginação sobre o fato.
Sem querer complicar suas ideias no fim de semana, essa parada funciona mais ou menos assim: quando falamos sobre perder o celular na rua, por exemplo, dividimos nossos sentimentos em lembrança de quando já perdemos, ou as consequências por perder.
Infelizmente, o que lembramos das dores por ter perdido ou imaginamos que vai acontecer por perdermos não vai fazer o telefone aparecer em nossa mão.
O ideal é que usemos nossa energia para começar a pensar como teremos outro, afinal, em algum momento teremos que chegar nessa linha de raciocínio.
Nossa autopunição
A tortura de imaginar a dor que virá ou lembrar da dor que já aconteceu é um mecanismo de autopunição. Nossa cabeça fica revivendo os últimos momentos do fato, pensando no que poderíamos ter feito para evitar que estivéssemos naquela situação.
Minha dica é que, quando coisas complicadas acontecerem, não perca tempo se julgando ou se punindo, o mundo já faz isso o suficiente. Viver as situações que geram dor já é ruim, ficar remoendo é colocar pimenta na ferida, não precisamos disso.