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Documentário de Crystom Afronario, que traz histórias de moradores do Morro da Cruz, estará no Festival de Gramado

Nas sextas-feiras, o colunista Émerson Santos escreve sobre educação, cultura, inovação e toda a diversidade presente nas comunidades

24/07/2026 - 08h00min


Émerson Santos
Émerson Santos
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Instituto Sociocultural do Morro da Cruz/Divulgação
Crystom Afronario já tem um Kikito.

Crystom Afronario. Esse é um nome para não se esquecer. Jovem talento da periferia de Porto Alegre, foi vencedor de um Kikito no Festival de Cinema de Gramado do ano passado. Aos 

25 anos, ele volta a conquistar um espaço no evento, mais uma vez levando as narrativas de sua comunidade.  

Cria da zona leste da Capital, seu documentário Morro da Cruz – Memória Popular foi selecionado para integrar a mostra de Longas-Metragens Gaúchos do festival, que vai ocorrer em agosto deste ano. A obra foi filmada integralmente na comunidade, registrando as histórias, lembranças e vivências de moradores. Por isso, Crystom e o Instituto Sociocultural do Morro da Cruz iniciaram uma campanha com o objetivo de garantir que pessoas do bairro possam também ir até a Serra para acompanhar a exibição.  

Pontuo aqui que o trabalho desenvolvido por Crystom é também fruto de políticas públicas. Digo isso porque ele estuda Realização Audiovisual na Unisinos com bolsa integral garantida pelo Prouni. Ou seja, seu talento foi potencializado pelas oportunidades que alcançou a partir da educação.  

— Acredito que o audiovisual é uma ferramenta importantíssima para registrar o que a gente entende sobre política, sonhos e bem-estar entre os moradores da comunidade. Tento trazer esse olhar para os trabalhos que faço — afirma o jovem cineasta.  

Como surge o documentário

Ele explica que, para falar do documentário, é preciso antes voltar a 2025. Em agosto daquele ano, numa sexta-feira, ele e os amigos fizeram o Samba do Kikito, uma celebração ao prêmio que seu curta, Aconteceu à Luz da Lua, levou no Festival de Gramado. Foi naquele encontro, conta ele, que surgiu o embrião do Instituto Sociocultural do Morro da Cruz. Uma das primeiras ações do projeto foi justamente promover exibições do curta-metragem.  

Em 2026, com o Instituto em plena atividade, organizaram para março a 1ª Semana do Morro da Cruz, um evento independente de quatro dias.  

Esse contexto é importante para entender como surge o documentário. Durante a preparação para o evento, Crystom teve o desejo de fazer uma produção que registrasse um pouco da história de seu território. A ideia era exibir o longa no primeiro dia de atividades, a céu aberto.

As filmagens ocorreram em fevereiro. Ele pegou sua câmera e convidou uma amiga da faculdade, Andréia Machado, para auxiliar com a parte do som. Com os aparelhos em mãos, saíram conversando com pessoas da comunidade. Foram 14 entrevistas em sete dias, tendo apenas duas semanas para montar o documentário.  

A questão é que, no dia programado, choveu, impedindo que realizassem a exibição. Passaram a pensar, então, de que forma iriam disponibilizar a produção. A primeira ideia foi publicar no YouTube, mas Andréia sugeriu inscrever o trabalho para o Festival de Gramado.  

— O mais emocionante é saber que este filme foi realizado de forma 100% independente, sem recursos financeiros. Foi construído com trabalho, dedicação, afeto e a confiança de quem acreditou que a história do Morro da Cruz merece ser contada por quem vive aqui — completa ele.  

Trata-se de um filme que cumpre diferentes funções. Além de destacar a potência das produções audiovisuais que são feitas nas periferias, o que já tem um grande peso, a obra cumpre um papel importante de registrar as memórias dessas pessoas que formam a comunidade. Materializar narrativas que antes estavam apenas na oralidade e que poderiam se perder.  

E, como os moradores são os protagonistas desse trabalho, é justo o movimento de os levar para acompanharem o festival. Outro objetivo que a campanha tem é juntar recursos para a acessibilidade da obra, tornando o documentário mais inclusivo e ampliando o acesso do público a essas histórias.  

Ajude

  • As doações podem ser feitas via Pix: institutomorrodacruz@gmail.com. Os recursos arrecadados serão destinados aos custos de transporte e demais despesas necessárias para que os moradores do Morro da Cruz acompanhem a exibição do documentário.

Foco na formação de lideranças negras

O Instituto Caminho — Raça e Acesso à Justiça vai lançar, na próxima semana, o Programa Jane Beatriz – Justiça e Bem Viver. O objetivo da ação é fortalecer o enfrentamento às violências raciais por meio da formação de lideranças negras. O nome dado à iniciativa homenageia a líder comunitária Jane Beatriz da Silva Nunes. 

O programa é estruturado em quatro frentes: formação jurídica crítica, empoderamento legal comunitário, atuação em casos estratégicos e incidência política. O foco são estudantes e profissionais negros e negras das áreas de Direito, Psicologia, Serviço Social, Ciências Sociais e Políticas Públicas. As inscrições podem ser feitas por meio das redes sociais do Instituto Caminho. 

Parceria

Entre as ações previstas está o curso “Raça e Acesso à Justiça”, realizado em parceria com a ESA/OAB-RS.  A abertura oficial acontece na terça-feira (28), às 19h, na sede da Escola Superior da Advocacia da OAB/RS (R. Manoelito de Ornellas, 55) em Porto Alegre. A aula inaugural será ministrada pelo jurista Hédio Silva Júnior, um dos principais nomes do país na luta contra o racismo e na defesa das religiões de matriz africana. 

Trata-se de um programa alinhado a toda a atuação do Instituto Caminho. A entidade faz um trabalho de aconselhamento jurídico, representação de vítimas e defesa técnico-jurídica em casos de discriminação, violência policial, erro judicial e projetos de promoção de direitos das juventudes negras.


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