Papo Reto
Manoel Soares: "Olhos abertos"
Colunista escreve no Diário Gaúcho aos sábados


Nesta semana, eu tive a tristeza de acompanhar dois amigos se despedirem das suas mães.
Eu ainda não vivi essa dor e espero que ela demore muito. A dona Ivonete não é somente uma referência em minha vida, mas um ponto cardeal quando nós falamos de desenvolvimento social de periferias em Porto Alegre e em outras cidades do Estado. A partida dessa pessoa tão emblemática será difícil de superar.
Então, eu, por meio da coluna desta semana, suplico a Deus para que Ele se demore na decisão de tirar do nosso convívio uma pessoa tão especial como a minha mãe.
Por outro lado, ao observar meus amigos sofrerem com a partida das suas melhores amigas na existência, vi que, quando perdemos a mãe, damos à luz a uma versão de nós que não gostaríamos que tivesse nascido.
O filho ou a filha que perde a mãe torna-se uma versão de si mesmo ainda desconhecida para si e para os outros. A versão de um filho sem mãe é uma versão com o olho um pouco mais apagado, um pouco mais triste. É alguém que tenta acomodar um espinho dentro do peito, que, cada vez que ele se mexe para sorrir, parece que esse espinho cutuca de uma maneira diferente.
Porém, já vi muitas pessoas que perderam a sua mãe tirando de si a necessidade de manter viva a essência deixada por ela. Nós somos o coração das nossas mães, que bate em outro peito. Somos o sorriso que ela vai dar para sempre. Nossos filhos são a sequência da alegria que ela trouxe ao mundo.
Despedida
Aos amigos e amigas que leem esse texto e que vivem o mesmo medo que eu, de um dia perderem essa pessoa que faz parte da essência do seu ser: que destinem parte da sua atual existência para que essas pessoas se sintam felizes.
Para aquelas pessoas que tenham uma relação ainda ruidosa ou contaminada por dores acumuladas ao longo do tempo com as suas mães, recomendo que aproveitem a possibilidade do perdão. Nossas mães são nossas anfitriãs nesse planeta.
Dona Ivonete, obrigado por manter os seus olhos abertos.