Papo Reto
Manoel Soares: "Criança guarda"
Colunista escreve no Diário Gaúcho aos sábados


Qualquer criança de cinco anos é um cartão de memória limpo onde podemos inserir informações. Mas, diferente de um cartão que colocamos em nosso celular, o cérebro de uma criança absorve tudo o tempo todo.
Às vezes, costumamos dizer que não sabemos onde nossos filhos aprendem certas coisas, mas, quando examinamos com cuidado, vemos que nós, sem querer, ensinamos o que não deveria ser ensinado. Criança vê tudo, está com as antenas ligadas.
Esses dias, fui conversar com uma menina de sete anos, e ela me explicou todos os sintomas do ciclo menstrual da mãe dela e como isso impactava a vida dela na escola. Fiquei de boca aberta com a forma como ela absorveu tudo o que as pessoas falavam perto dela.
Cuidar do que falamos perto de nossos filhos também é uma forma de demonstrar amor e cuidado.
Às vezes, temos raiva de parentes e pessoas próximas e acabamos deixando escapar coisas sem querer. Isso pode criar memórias ruins para a criança.
Outro erro comum que cometemos é pedir para a criança omitir alguma coisa ou omitir dela a verdade. É importante lembrar que criança aprende tudo o que o adulto faz como algo que deve ser feito.
Se ensinamos a criança a mentir para o pai ou para a mãe, ela vai entender que aquilo é permitido. Isso não se faz nem de brincadeira, porque, para criança, brincadeira é coisa séria.
Um psicólogo infantil, amigo meu, me explicou que muitos avós fazem algo que pode ser muito perigoso: pedem aos netos para guardar segredos dos pais. Pode parecer inocente, mas a verdade é que quebramos aí um laço de confiança e abrimos uma caixinha onde, no futuro, poderão ficar guardadas informações que deveriam ser compartilhadas com os pais.
Em um mundo digitalmente perigoso como o que vivemos, não podemos nos dar esse luxo. Temos que guardar nesses cérebros novos as informações que realmente vão fazer a diferença na vida deles.