Papo Reto
Manoel Soares: "Telefone imoral"
Colunista escreve no Diário Gaúcho aos sábados


Nesta semana foi lançado um telefone que deve custar, no Brasil, o equivalente a R$ 22 mil. Não estamos falando da entrada de um apartamento nem de um carro; estamos falando de um aparelho telefônico. Cada um sabe de si e compra o que quiser. Não sou a polícia do dinheiro de ninguém. Mas colocar à venda um telefone que custa mais de um ano de salário mínimo é, no mínimo, desrespeitoso com quem trabalha a vida toda para dar o mínimo à família.
Pior ainda é que, em pouco tempo, haverá jovens da música com esse aparelho em seus clipes, atiçando o desejo de quem não tem nem gás em casa.
Para mim, um telefone desses sendo esfregado na cara das pessoas em vitrines e anúncios é uma violência psicológica, pois, quando uma sociedade não dá oportunidades lícitas para as pessoas realizarem os desejos absurdos que essa mesma sociedade coloca em seus corações, cria um cenário fértil para ampliar a criminalidade.
Ciclo de violência
Nada justifica uma pessoa cometer um crime, e quem faz isso deve pagar pelo que faz. Por outro lado, não existe ninguém que cobre dessas empresas o mínimo de moralidade. Elas, em nome da liberdade de mercado, entregam na cara de 95% da população a mensagem de que não podem ter o que é oferecido. É a mesma coisa que comer um banquete na frente de pessoas esfomeadas.
Da mesma forma que essas empresas não têm uma visão moral e humanitária na hora de oferecer produtos que violentam a dignidade econômica do brasileiro, algumas pessoas de cabeça fraca e índole torpe veem nessa violência o direito de revidar por meios ilegais e ilícitos.
A pergunta que fica é: precisamos de um telefone de R$ 22 mil?