Retratos da vida
Pavilhão da Expointer dá espaço para artesãos gaúchos: "A gente acaba fazendo amigos"
No Parque de Exposições Assis Brasil, em Esteio, ocorre a 43ª Expoargs. O Diário Gaúcho conheceu histórias de quem encontra sustento nas técnicas artísticas.

Entre os pavilhões Internacional e da Agricultura Familiar, na Expointer, os fãs de artesanato têm passeio garantido. Durante toda a duração do evento, que termina neste domingo, ocorre a Exposição de Artesanato do Rio Grande do Sul (Expoargs). Promovida pela Fundação Gaúcha do Trabalho e Ação Social (FGTAS), em parceria com o Programa Gaúcho de Artesanato (PGA), o evento está na 43ª edição.
É ali, no estande 21, que Luiz Jardim, 74 anos, comercializa itens esculpidos em madeira: relógios de parede, placas, cabides e objetos de decoração. De todas as edições do evento, só não foi ao Parque de Exposições Assis Brasil quando a feira não ocorreu presencialmente. Por isso, tem anos de prática e muita história para contar:
— Às vezes eu tô deitado, descansando, e surge uma ideia. No outro dia de manhã, já estou fazendo. Eu pego uma tábua, desenho com a caneta e já sai a peça. Vai direto — explica Luiz.
A relação de Luiz com o artesanato começa muito antes da Expoargs. Ele expõe no parque de Esteio antes mesmo de esse evento existir. Há 48 anos, por exemplo, época em que residia em São Gabriel, na Campanha, estava vendendo ali quando recebeu a notícia de que seu filho estava nascendo no outro município. Como o artesanato era o sustento da família, ele precisou ficar vendendo para garantir condições financeiras para criar o filho.
Dedicação
Luiz conta que aprendeu seu ofício ainda jovem, quando fazia brinquedos de madeira junto a um vizinho. Mais tarde, passou a trabalhar como comerciante, mas seguiu em contato com uma turma de amigos artesãos.
Um tempo depois, tomou uma decisão importante: largou a profissão e passou a se dedicar exclusivamente ao artesanato. Sempre autodidata, trabalhou com couro e metal, além da madeira, utilizando os conhecimentos que adquiriu na prática.
— A evolução vem do trabalho da gente. A gente vai se julgando, procurando fazer sempre mais perfeito. E o melhor avaliador é o público. Se o público não gostar, tu já sabes que tem coisa errada — explica Luiz.
A dedicação rendeu frutos. Nos anos 1970, Luiz conseguiu o registro profissional de artesão no Estado. Sua carteira é a de número 81 — atualmente, o Rio Grande do Sul já conta com quase 100 mil profissionais registrados nesse ramo.
— Vivo somente do artesanato, nunca faltou nada. Às vezes a gente passa por uns perrengues, mas tranquilo. Já consegui minha casinha, transporte, infraestrutura, oficina e material.
Com o auxílio do PGA, Luiz também consegue comercializar seus produtos em outras cidades de todo o Brasil. Além de iniciativas como essa e feiras pelo Interior, Luiz expõe suas criações aos finais de semana no Brique da Redenção.
Feira é espaço para quem está começando
De acordo com a coordenadora do PGA, Mara Rodrigues, qualquer pessoa que se enquadre nas legislações federais e estaduais que definem o trabalho de artesão pode obter o registro profissional.
— Um artesão que trabalha com crochê, por exemplo, para ter a carteira, que é gratuita, marca um teste de habilidade, levando três peças de artesanato. Um técnico da fundação (FGTAS) faz a avaliação e vê se realmente é artesanato — explica ela.
É o caso de Flávio Luiz Bartz, 66 anos, que desenvolveu, como hobby, um método de arte com sucatas durante a pandemia. Como trabalhava no setor de confecção de uniformes escolares e, com as escolas fechadas, viu uma oportunidade de explorar uma nova atividade. Foi nesse período que construiu uma máquina de solda, equipamento que nunca havia utilizado antes.
— Comecei, como uma brincadeira, a fazer algum trabalho e dar para os amigos de presente. E teve um final de semana que eu participei de uma feira e, a partir de então, conheci a Casa do Artesão e consegui o registro.
Como Luiz, passou a expor no Brique da Redenção e, neste ano, tem sua banca pela primeira vez na Expoargs — no estande 19. Tanto ele quanto o colega da 21 compartilham a importância da união dos artesãos.
— O artesanato me ajudou muito também no convívio com as pessoas. Tem clientes que já compraram várias peças de mim e retornam lá para falar como é que tá, para ver se tem coisa nova. O legal do artesanato é isso, a gente acaba fazendo amigos — diz Flávio.
Como obter um registro
/// Ir à Agência Sine mais próxima. Em Porto Alegre, é possível ir à sede da Casa do Artesão da FGTAS (Rua Júlio de Castilhos, 144)
/// Apresentar três peças de cada matéria-prima ou técnica que deseja cadastrar
/// Realizar teste de habilidade diante do avaliador
/// Tirar foto 3x4
/// Apresentar cópias simples dos seguintes documentos: documento de identificação com foto, RG e CPF, comprovante de residência atualizado
/// O documento é emitido gratuitamente
*Com orientação e supervisão de Émerson Santos