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Michele Vaz Pradella: "Benedito Ruy Barbosa entendeu e retratou como ninguém o interior do Brasil"

Autor morreu nesta terça-feira (7), deixando um legado de histórias inesquecíveis

07/07/2026 - 13h14min

Atualizada em: 07/07/2026 - 13h20min


Michele Vaz Pradella
Michele Vaz Pradella
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João Miguel Júnior/Globo,Divulgação
Autor morreu nesta terça, aos 95 anos

Benedito Ruy Barbosa fez parte da minha vida, me emocionando, arrebatando e ensinando um pouco de história a cada trama. Uma das primeiras novelas que lembro de ter assistido foi Renascer — a versão original, de 1993 — e cenas da trama têm lugar especial na minha memória afetiva. O Boi Bumbá, o cramulhãozinho da garrafa, as aparições de Maria Santa (Patrícia França) e a morte do Coronel José Inocêncio (Antonio Fagundes) me mostraram que a teledramaturgia pode ser mágica, assustadora e inesquecível.

TV Globo/Banco de Dados
Antonio Fagundes na primeira versão de "Renascer"

Como boa descendente de italianos, me emocionei com as histórias de imigrantes que povoaram o país no início do século 20. Primeiro, em O Rei do Gado (1996), com uma primeira fase povoada de monstros sagrados da teledramaturgia: Antonio Fagundes, Tarcísio Meira, Eva Wilma... A sequência em que Giuseppe Berdinazzi (Tarcisão, gigante!) enterra a medalha de seu filho Bruno (Marcello Antony), morto em combate na Segunda Guerra, na esperança de que ele nascesse de novo, me arrepia até hoje. Essa parte da história me toca de um jeito especial, já que meu "nonno" também foi um dos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB).

Reprodução/Rede Globo
A melhor rivalidade: Berdinazzi x Mezenga


Assim como Giuliana (Ana Paula Arósio), também me apaixonei por Matteo (Thiago Lacerda) em Terra Nostra (1999). Na época de exibição da novela, estava liberado inserir no vocabulário do dia a dia expressões como "amore mio", "dio santo" e "va bene".  

Divulgação/TV Globo/Divulgação
"Io te voglio bene, amore mio"


Completando a "trilogia italiana" de Benedito Ruy Barbosa, Esperança (2002) tinha no elenco estelar nomes como Raul Cortez, Fernanda Montenegro, Ana Paula Arósio e Reynaldo Gianecchini. Infelizmente, não teve a mesma repercussão de suas antecessoras, e o atraso na entrega dos capítulos obrigou a Globo a trocar a autoria na reta final, com Walcyr Carrasco encerrando o trabalho iniciado por Benedito.

Ver Descrição/Ver Descrição
Gianecchini e Priscila Fantin: par romântico em "Esperança"

Assim como Manoel Carlos, falecido em janeiro deste ano, Benedito Ruy Barbosa deixa uma lacuna na teledramaturgia brasileira. Insubstituível, mas com um legado que vem sendo levado adiante por suas filhas, Edmara e Edilene, responsáveis pelos remakes de Cabocla (2004), Sinhá Moça (2006) e Paraíso (2009), e pelo neto Bruno Luperi, que criou novas versões de Pantanal (2022) e Renascer (2024).

Benedito entendeu e retratou como ninguém o interior do Brasil, com todas as suas mazelas, lendas e histórias fantásticas. Entre os anos 1990 e 2000, o povo se viu na telinha, se identificou com uma gente sofrida que colhe café, pisa no cacau e conduz o gado pelas estradas afora. Um país invisível, que raramente se vê no audiovisual, se viu representado nas obras do autor. Vai deixar saudade.


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