Entrevista
Superbactéria NDM-1 não se tornou endêmica em nenhum país, diz especialista em bacteriologia clínica
Detectada pela primeira vez no país no Hospital Conceição, bactéria indiana chegou também à Santa Casa
Apesar do nome no superlativo, a bactéria indiana NDM-1, recém chegada ao Brasil, tem demonstrado menos força para se disseminar ao redor do mundo do que se esperava, segundo a coordenadora do Departamento Científico de Bacteriologia Clínica da Sociedade Brasileira de Infectologia, Ana Gales.
Na entrevista a seguir, ela explica as razões para isso e também por que superbactéria NDM-1 chegou primeiro ao Rio Grande do Sul. Depois dos cinco casos confirmados há duas semanas no Hospital Conceição, o Complexo Hospitalar Santa Casa também confirmou um caso na última sexta-feira.
Zero Hora - Mais um hospital de Porto Alegre confirmou um caso da superbactéria NDM. É um indício de que pode haver um surto desta bactéria na Capital?
Ana Gales - A NDM foi descrita já faz alguns anos, então a gente já estava esperando que ela fosse entrar no Brasil, tanto é que tem laboratórios em São Paulo fazendo essa pesquisa. Por causa da fronteira, já se esperava que essa bactéria pudesse chegar pelo Rio Grande do Sul, porque ela foi detectada recentemente no Uruguai. Poder surgir um surto, pode, mas a gente já tem a KPC, que também é capaz de inativar o antibiótico mais potente que se tem e que já está presente nos hospitais brasileiros, causando vários casos de colonização e infecção. Se a NDM vai tomar a notoriedade da KPC, a gente ainda não sabe, mas minha impressão é que não. Parece que a outra (KPC) se dissemina com uma velocidade maior.
ZH - Então, a NDM teria uma capacidade de disseminação menor que a KPC?
Ana - Na verdade, a gente não sabe. O mecanismo é o mesmo, só que a impressão que se tem é que a capacidade de propagação dela é menor do que da KPC. Tanto que em nenhum dos países em que ela entrou, ela se tornou endêmica, com exceção da Índia e do Paquistão, onde a NDM está disseminada no meio ambiente. Esse era o grande pavor dela no começo da história e por isso ela foi chamada de superbactéria. É diferente da KPC, que onde entrou, tornou-se endêmica.
ZH - Que mecanismo faz com que essas bactérias passem de um hospital para outro?
Ana - Normalmente, é a transferência de pacientes. Lógico que o profissional, tanto da parte médica quanto da enfermagem, pode transitar de um hospital para outro e levar essa bactéria resistente. Habitualmente é a transferência. Pode ser que um paciente com NDM não tenha sido transferido de um hospital para outro, mas um outro que estava ao lado dele foi e acabou levando o mecanismo.
ZH - É normal o surgimento de mecanismos desse tipo de tempos em tempos?
Ana - Sempre vai ter o surgimento de uma bactéria resistente. A bactéria está adaptada na Terra há bilhões de anos, e num hospital a gente só favorece o crescimento desses micro-organismos porque a gente usa antibióticos e porque se tem uma população de pacientes muito sensíveis hoje em dia. Não tinha paciente que fazia diálise há 60 anos, não tinha transplante, não tinha UTIs tão bem equipadas, então você cria um ambiente muito propício hoje. O que é muito importante é que as pessoas tenham o controle disso, que lavem as mãos antes e depois de manipular o paciente e que a relação de número de funcionários e pacientes seja adequada.
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