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Anfitrião dos VIPs

Condenado a 73 anos de prisão, ex-soldado recepcionou presos da Operação Concutare no Central

Ex-PM, de 54 anos, chefia galeria no presídio em Porto Alegre

18/05/2013 - 16h03min

Atualizada em: 18/05/2013 - 16h03min


Presos da segunda galeria do Pavilhão E do Central obedecem as ordens do homem de 54 anos

O preso de cabelos brancos que recebe na porta da cela o ex-secretário do Meio Ambiente de Porto Alegre Luiz Fernando Záchia faz uma oferta para o recém-chegado se sentir mais à vontade:

- Posso emprestar uma bermuda, é a melhor que tenho, e uma camiseta novinha do Grêmio?

Em um misto de constrangimento e surpresa, Záchia, ex-dirigente do Inter, agradece:

- Não posso aceitar. Se me filmarem, nunca mais vão me eleger para nada.

Era uma brincadeira do ex-soldado da Brigada Militar, 54 anos, condenado por assaltos e homicídio a 73 anos de prisão, chefe do E2, a segunda galeria do Pavilhão E do Presídio Central - antigo espaço administrativo que se transformou em ala reservada para presos com curso superior e homens da lei que viraram bandidos.

A partir daquele momento, Záchia e 17 homens - entre eles os ex-secretários estaduais do Meio Ambiente, Carlos Niedersberg e Berfran Rosado, empresários, consultores ambientais, servidores públicos estaduais e federal - presos provisoriamente pela Polícia Federal (PF), estavam sob responsabilidade do ex-PM, que dá ordens a 26 detentos ilustres, entre advogados, ex-policiais, professores e médicos.

Sob suspeita de envolvimento em um suposto esquema de venda de licenças ambientais, os recém-chegados foram capturados durante a Operação Concutare. Estavam apavorados ao pisar pela primeira vez na maior cadeia do Estado, símbolo maior de um sistema prisional decadente.

- O pessoal chegou aqui inseguro, mas garanti que ficariam bem. Não deixo bater nos mais humildes. Poderia colocá-los em cela para dois, mas eram 18 fragilizados, sem preparo para isso aqui. Botei em duas celas para terem um pouco de privacidade e falei para os outros presos não chamarem eles de ladrão ou corrupto porque isso ia pegar mal - lembra o ex-policial, que pediu para ter a identidade preservada porque deve se transferir em breve para o semiaberto e pretende conseguir emprego fora do cárcere.

O ex-PM conta que, atrás das grades, a solidariedade é um sentimento comum para quem chega da rua só com a roupa do corpo. Mas, é claro, existem aversões. Autores de crimes contra crianças e grávidas são tão odiados quanto estupradores, assim como devedores de pensão alimentícia porque deixam os filhos passando fome.

Chamado por alguns policiais civis de Chacal, apelido que ele abomina e sequer consta na sua ficha criminal, o ex-PM demonstrou sensibilidade para amparar Záchia. O ex-secretário era um dos poucos que seguravam as lágrimas:

- No segundo dia, ele (Záchia) veio me dizer que os demais enxergavam nele um líder por ter sido diretor do Inter, presidente da Assembleia, mas que estava desabando. Então eu disse: chora, faz bem desabar. Sozinho, todos nós choramos. Depois dei uma moral. Disse que era preciso ser forte porque era o principal guerreiro dos vermelhos, o nosso maior adversário no futebol.

Nos quatro dias no cárcere, Záchia e outros presos comeram e beberam em prato e colher de plástico o alimento servido para todos os 4,2 mil presos do Central. E lavaram a própria louça. Mas foram poupados de uma antiga armadilha macabra, o trote de horror para calouros na "faculdade do crime". A brincadeira começa com a simulação de uma briga generalizada e termina com uma "execução" a facadas.

Sob ameaça de morte, o novato é obrigado a arrastar o suposto corpo até a grade, chamar o carcereiro e assumir o crime. Sem saber que a faca fora cravada em um pedaço de madeira escondido dentro da roupa e que o sangue, na verdade, era extrato de tomate, muitos urinam e defecam nas calças.

O trote está proibido na galeria por ordem do ex-PM. Com 1m85cm, 98 quilos, ele é "duro na queda" desde jovem, quando se apresentava em circo como motoqueiro no globo da morte e lutava vale-tudo nos ringues - usava apenas um protetor para os dentes. Nos tempos da BM, preferia usar habilidades com Shorinji Kempo (arte marcial japonesa que tem entre seus princípios a bravura) para prender suspeitos. Uma dessas abordagens ficou famosa, ao ser flagrada por Zero Hora, em abril de 1983. Depois que trocou de lado afirma ter suportado até 10 horas de torturas no pau de arara, "em posição de frango assado".

- Eu era cheio, mas o tempo faz a gente se dobrar - reconhece.

Malandro é quem não precisa fugir da polícia

Por duas décadas atrás das grades, resistiu às adversidades do cárcere, como doenças, maus-tratos, um tiro de espingarda que perfurou as costas. Persuasivo, aprendeu a se impor pela palavra. Em último caso, se for preciso, sai no braço. Além do trote macabro, matar ou morrer é proibido nas dependências do E2.

- Se tem um doente, mando para a enfermaria para não morrer na minha mão. Mas se matam um, vão aparecer dois corpos lá embaixo. Sigo o ditado que diz: onde existe respeito não morre homem. Além do mais, não permito entrada de armas nem drogas.

Ao longo de sete anos com chefe do E2, dezenas de presos letrados envolvidos em crimes de repercussão - os quais evita falar - passaram pelas mãos do ex-PM. Ele lembra de alguns hóspedes que causaram problemas, como um advogado que reclamava de assédio sexual para forçar a Justiça a mandá-lo para prisão domiciliar.

- Ele se queixava que poderia ser atacado, mas vivia de selinho na boca com dois outros presos. Ora, mandei todos embora. Não aceito esse tipo de comportamento.

Após oito anos como soldado, o ex-PM foi expulso da BM ao se misturar com colegas de farda suspeitos de envolvimento em dois dos crimes mais rumorosos no Estado nos anos 1980 - os assassinatos do engenheiro da Corsan Paulo Roberto Pitta Pinheiro e do deputado estadual José Antônio Daudt.

Nos dois casos, o ex-PM conseguiu provar inocência, mas se enredou de vez quando comprou briga com um delegado da Polícia Civil, se envolveu em roubos e perdeu o emprego de segurança de empresário. Quando trabalhava para bicheiros, no Vale do Rio Pardo, trocou tiros por disputa de bancas de jogo, tendo matado um homem e deixado outro paraplégico. Pelo crime, foi punido com 30 anos de prisão.

Com apenas a 5ª série do Ensino Fundamental, sem dinheiro e longe da família, o ex-PM aproveitou a cadeia para estudar e tentar reconstruir uma nova vida:

- Fiquei sem nada. O que não perdi para a polícia, os advogados levaram.

Recentemente, ele prestou provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e foi aprovado em vestibulares de seis faculdades, mas desistiu dos estudos porque não teria escolta para acompanhá-lo às aulas.

- A LEP (Lei de Execução Penal) diz que o preso tem uma série de direitos, mas é uma obra de ficção como o Pequeno Príncipe. Todo o homem que passar um determinado tempo aqui vai morrer aqui. Quem vai sair será uma outra pessoa, muito pior - filosofa, com voz firme.

O ex-PM diz aproveitar o tempo livre para escrever. Já rascunhou 600 poesias e oito livros. Apenas um foi publicado, no qual lembra histórias e dramas vividos atrás da grades como a de um preso assassinado no dia do aniversário. O corpo foi colocado sentado e seus algozes começaram a "conversar com o morto". Rindo, perguntavam como a vítima tinha se deixado pegar de bobeira e alertavam que no inferno deveria ser mais esperto. Por fim, cantaram Parabéns a Você.

O líder da galeria planeja, também, criar uma organização não-governamental para defender os direitos dos presos. Arrependido, assegura que o crime não compensa.

- Quem está no mundo do crime não pode ter família. Malandro de verdade é quem dorme todas as noites em casa, ao lado da mulher, e não precisa fugir quando a polícia bate na porta.

O policial, o suspeito e o cão

Há 30 anos, o então soldado da BM, que hoje comanda a galeria que recebe VIPs no Central, era fotografado por ZH prendendo um homem numa vila
Foto: Fernando Gomes, Agência RBS

O ex-PM que lidera a galeria dos presos ilustres no Presídio Central de Porto Alegre foi personagem de uma edição de Zero Hora, há 30 anos, por causa de um registro fotográfico raro e surpreendente numa vila da Capital.

Na tarde de 31 de março de 1983, o então soldado do 1º Batalhão de Polícia Militar tentava prender um suspeito ao mesmo tempo que era atacado pelo cãozinho do homem.

- Rasgou a farda e me machucou, mas nada grave - recorda.

O ex-PM estava em uma operação na Vila Maria da Conceição, na zona leste da Capital. A vila estava cercada pela polícia após a morte de um jovem aparentando pouco mais de 20 anos, executado com dois tiros em meio a vielas no morro.

Como de costume, apesar do sol em plena tarde outonal, ninguém se apresentou como testemunha do crime. A lei do silêncio já imperava na vila. Um Fusca abandonado nas imediações levantava suspeitas de que poderia ser dos criminosos. Teriam fugido à pé e estariam por perto.

A suspeita da polícia, e da própria família da vítima, era de que o rapaz fora morto por causa de dívidas com drogas. A Conceição ainda não tinha a fama de maior boca de fumo da Capital, mas já produzia suas vítimas - na época, o tráfico era embrionário na região e não estava sob o comando de Paulo Ricardo dos Santos da Silva, o Paulão, apontado até hoje por autoridades como principal traficante da Capital.

Os PMs também procuravam um homem que, dias antes, assaltou e matou um coronel da reserva da BM e teria se refugiado na vila. Em determinado momento, em uma das vielas, um jovem foi visto correndo e atirando uma sacola para dentro de um pátio. Os PMs foram atrás.

A desconfiança era de que o rapaz estaria tentando se livrar de alguma arma. O então PM foi o primeiro a chegar. De revólver em punho, abordou o suspeito. Logo se aproximaram mulheres, possivelmente familiares do suspeito, e o rapaz tentou fugir.

Começou uma luta corporal, e a cena despertou a raiva de uma vira-lata. Tudo indica que era de estimação da família do rapaz. Enquanto o então ex-PM fazia força para imobilizar o braço esquerdo do jovem com a corda do cassetete, o cachorro, rosnava. E, em solidariedade ao dono, avançou, cravando os dentes no PM, rasgando a farda e ferindo a panturrilha direita dele.

O rapaz acabou detido, mas como a sacola foi encontrada vazia, em seguida foi solto. O episódio foi flagrado pelo repórter fotográfico de ZH Fernando Gomes. Uma das cenas estampou a capa de ZH do dia seguinte, e uma sequência de fotos foi publicada em duas páginas internas com a reportagem "A violência na Vila Maria da Conceição".

A divulgação das imagens despertou debates entre ativistas de direitos humanos em relação à ação do PM. As fotos receberam a principal distinção no Prêmio Associação Riograndense de Imprensa (ARI), e o segundo lugar no Prêmio Nikon, em 1983.

Meses após, o soldado também recebeu homenagens como PM do ano. Três décadas depois, não se tem notícia do paradeiro do jovem. Mas o então policial, envolvido em crimes, já não faz mais parte da Brigada. Entre os 4,2 mil detentos do Presídio Central, ele é anfitrião dos VIPs na cadeia.


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