Violência infantil
Caso Oliver: Justiça torna réus pais de menino de três anos morto após agressões em Viamão
Menino de três anos morreu após sofrer traumatismo cranioencefálico em julho; pai responderá por homicídio qualificado e tortura, enquanto mãe virou ré por omissão e tortura

A Justiça do Rio Grande do Sul tornou réus os pais de Oliver Grayson, de três anos, morto após sofrer agressões em Viamão, na Região Metropolitana. A denúncia do Ministério Público (MPRS), aceita pela 1ª Vara Criminal da comarca, aponta que o menino foi espancado após não responder a um "bom dia". Ambos estão presos preventivamente.
Segundo a acusação, o pai, o missionário Dandre Jermaine Grayson, 33 anos, deu socos na criança e bateu sua cabeça contra o piso, causando um traumatismo cranioencefálico grave que levou à morte após a hospitalização. Ele responderá por homicídio qualificado — por motivo fútil, meio cruel, recurso que dificultou a defesa, vítima menor de 14 anos e descendência — e por quatro crimes de tortura contra os filhos.
A mãe, Mayanna Angelina Rodgers, virou ré por quatro crimes de tortura por omissão em relação aos quatro filhos. O MP aponta que ela sabia das agressões, presenciava a violência e não impediu os fatos, apesar do dever de proteção. O texto da denúncia difere do indiciamento da Polícia Civil, que a havia responsabilizado por participação na morte por omissão; como essa imputação ficou de fora, ela não responde pelo homicídio.
Os desdobramentos na Justiça
- O pai: como responde por crime doloso contra a vida, o caso segue o rito do Tribunal do Júri. Nesta primeira fase, a Justiça vai avaliar se há elementos suficientes para enviar Dandré a júri popular.
- A mãe: segundo o Ministério Público, Mayanna também deve ser julgada pelo júri porque os crimes de tortura por omissão atribuídos a ela são conexos ao homicídio.
A defesa de Mayanna avalia pedir a separação dos processos (ver nota da defesa, abaixo).
Além das acusações criminais, o Ministério Público pediu a destituição do poder familiar do casal e o pagamento de indenização mínima de R$ 50 mil por danos morais aos irmãos sobreviventes. Atualmente, os quatro irmãos de Oliver permanecem acolhidos juntos em um serviço especializado.
Contraponto
O que diz a defesa de Dandre Jermaine Grayson
NOTA
A defesa de D’Andre Grayson informa que, na noite de ontem (27), tomou ciência da Denúncia ofertada pelo Ministério Público em desfavor do Sr. D’Andre Grayson.
Diante disso, por ora, afirma que durante a instrução criminal, sob o crivo do contraditório e da ampla defesa, serão apresentados ao juízo competente fatos e argumentos defensivos capazes de garantir um julgamento justo ao denunciado.
Ismael Schmitt / Jader Santos — Defensores Constituídos
O que diz a defesa de Mayanna Angelina Rodgers
A defesa de Mayanna Angelina Rodgers esclarece que a denúncia apresentada nesta quinta-feira (27) pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) não acusa Mayanna pelo homicídio de seu filho, Oliver Golden Grayson.
O pai da criança foi denunciado pelo homicídio, enquanto Mayanna responde por quatro acusações de tortura por omissão relacionadas aos demais filhos do casal.
A defesa destaca ainda que a imputação de tortura por omissão não é classificada como crime hediondo. Diante disso, a partir desta etapa processual, a defesa concentrará seus esforços na busca pela liberdade de Mayanna.
Os advogados ressaltam que uma denúncia do Ministério Público representa uma acusação que ainda será submetida à análise do Poder Judiciário. Mayanna terá assegurados o contraditório, a ampla defesa e o devido processo legal.
“Mayanna não foi acusada de homicídio. Essa distinção é fundamental e precisa ser esclarecida. Vamos trabalhar, agora, para demonstrar sua versão dos fatos e buscar sua liberdade, dentro de todas as garantias previstas pela legislação brasileira”, destaca o advogado André von Berg.
A defesa reitera seu compromisso com a apresentação dos elementos necessários ao esclarecimento dos fatos e com a preservação dos direitos de Mayanna ao longo de todo o processo.
Isabel Cochlar
André von Berg
Juliana Braun Martins
Relembre o caso
No dia 5 de julho, Oliver deu entrada no Hospital de Pronto Socorro (HPS) após ter sido espancado pelo pai, Dandre Grayson.
O homem confessou ter agredido o filho por ele não ter dado "bom dia". Dandre, que se diz missionário e prega para igrejas evangélicas, foi preso preventivamente.
A criança ficou internada três dias, e teve a morte confirmada na noite do dia 9. No dia seguinte, a mãe, Mayanna Rodgers, também foi presa de forma preventiva. Segundo a Polícia Civil, ela é suspeita de omissão e tortura.
A família já era acompanhada há oito meses pelo Conselho Tutelar e pela prefeitura de Viamão. Uma enfermeira acionou a rede de proteção após verificar machucados nos corpos das crianças. No entanto, relatório não apontou vestígios de violência. Havia histórico de violência ou de acompanhamento do poder público em ao menos três cidades: Águas de Lindoia e Mogi Mirim, em São Paulo, e Palmitos, no Estado de Santa Catarina.
O Tribunal de Justiça, Ministério Público e Polícia Civil afirmam que não receberam nenhuma informação sobre a família.