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Coronavírus18/05/2020 | 05h00Atualizada em 18/05/2020 | 05h00

Como a pandemia afetou o atendimento na rede básica de sáude

Antes da chegada do coronavírus, já faltavam médicos na rede municipal. Agora, situação foi agravada por afastamento de profissionais de outras áreas

Como a pandemia afetou o atendimento na rede básica de sáude Félix Zucco/Agencia RBS
Locais com a UBS Vila Elizabeth, na Zona Norte, estão com equipe reduzida Foto: Félix Zucco / Agencia RBS

A crise gerada pelo coronavírus na Capital afetou também a base da pirâmide no atendimento em saúde. Trata-se da rede primária, aquela que inclui as Unidades Básicas de Saúde (UBS), Centros de Saúde (CS), Estratégia de Saúde da Família (ESF) e Clínica da Família (CF). 

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Por determinação judicial, todos aqueles servidores com mais de 60 anos do setor da saúde que lidam diretamente com o atendimento de pacientes em seus locais de trabalho foram afastados das atividades. Com isso, o impacto na rede primária chegou a 187 profissionais retirados de ação, incluindo técnicos, enfermeiros e médicos de variadas especialidades. Ao mesmo tempo em que protege os trabalhadores de mais idade, a medida deixa um sistema que já passa por dificuldades ainda mais combalido. 

Conforme o município, a rede pública da Capital tem 2.900 profissionais, incluindo trabalhadores de unidades como o Hospital Materno Infantil Presidente Vargas (HPV), Hospital de Pronto Socorro (HPS) e Samu. A prefeitura não especificou quantos trabalham apenas na rede primária. Ao todo, 569 foram afastados em razão da medida judicial, incluindo os 187 da atenção primária.

Não bastasse este afastamento, na Capital, a rede primária tem um imbróglio a mais. É o extinto Instituto Municipal de Estratégia de Saúde da Família (Imesf). Apesar de a lei que criou a instituição ter sida considerada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF), extinguindo assim a entidade, a prefeitura ainda não conseguiu fazer o desligamento dos funcionários. E como o Imesf também era o meio de contratação e deixou de funcionar, o município não consegue abastecer os pontos da rede que estão com deficiência no atendimento. 

Falta de médicos agravou situação 

Para contornar essa estagnação na entrada de novos profissionais, uma saída que o município vem adotando é a terceirização da saúde básica. Dos 135 postos de Porto Alegre, 20 passaram das mãos da prefeitura para a administração de instituições sem fins lucrativos devido à extinção do Imesf. 

Outro dois pontos também foram importantes na mudança no atendimento. A extinção das filas para retirada de fichas de agendamento e a ampliação de horários de funcionamento em 30 unidades: 18 locais funcionam até as 19h, quatro até as 20h e oito até as 22h. A ideia é que cada região da cidade tenha ao menos uma unidade com horário expandido.

Só que estas medidas não resolvem o problema por completo, já que a pandemia do coronavírus não estava nos cálculos e trouxe fatos novos, com o afastamento dos 187 profissionais. Isso ainda se aliou ao problema gerado pelo impedimento de contratações. Atualmente, faltam 27 médicos em equipes de saúde da família. Todas as informações são da Secretaria Municipal de Saúde. São quase três dezenas de profissionais em falta na linha de frente de combate ao coronavírus. 

Para completar este saldo negativo, além dos médicos em falta e dos profissionais afastados de suas funções, outros 10 profissionais estão em período de recuperação: eles tiveram sintomas de covid-19, mas a infecção foi descartada. Contando com estes, 49 trabalhadores da saúde já apresentaram sintomas gripais. E, em cinco, o coronavírus foi detectado.

Grupo para orientar moradores

 PORTO ALEGRE, RS, BRASIL, 17-05-2020: Os efeitos do coronavírus em pontos da rede primária de atendimento. Na foto,  Roselaine Modesto de Pádua, em frente à UBS Vila Elizabeth, na Zona Norte de Porto Alegre (FOTO FÉLIX ZUCCO/AGÊCIA RBS, Editoria de Geral).
Roselaine é conselheira distrital de saúde na Zona NorteFoto: Félix Zucco / Agencia RBS

Para quem depende do atendimento perto de casa, a situação se complica. Roselaine Modesto de Pádua, 46 anos, é conselheira distrital de saúde na Zona Norte. A Unidade de Saúde Vila Elizabeth, no Sarandi, atende aos moradores do seu bairro. Segundo ela, o local já estava sem clínico-geral desde março, por término do contrato. Agora, com a pandemia, a pediatra que atendia no espaço precisou ser afastada por fazer parte do grupo de risco para covid-19. Só restou o atendimento com ginecologista, que está limitado a gestantes. 

Esses fatores acabam afetando o objetivo de que pacientes com sintomas mais leves de coronavírus, ou até mesmo que precisem de outros atendimentos não emergenciais, busquem a rede primária. E, dependendo do caso, o paciente pode acabar indo buscar ajuda numa emergência, gerando uma demanda que poderia ser suprida no posto do seu bairro. 

Roselaine explica que, para evitar que usuários da rede — principalmente, idosos — tenham de se deslocar até mais longe, foi criado um grupo no WhatsApp. Por lá, a conselheira orienta e informa à comunidade sobre a disponibilidade de medicamentos, atendimentos e quaisquer outras dúvidas que surjam.

— Temos um grupo também com os trabalhadores do posto. Eles nos informam quando tem vacina, quando acaba, os procedimentos que podem ser feitos, como apresentar algum exame. Estamos fazendo essa intermediação para evitar que as pessoas saiam de casa desnecessariamente — explica a conselheira.

Locais com horário estendido são opção

A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) explicou que o sistema de saúde da Capital passa por reformulações. A não existência de médicos especialistas, como pediatras e ginecologistas, nas unidades de saúde, faz parte disso. A ideia é que os pontos básicos tenham somente as equipes de saúde da família, com clínico geral, além dos técnicos e enfermeiros. A prefeitura também diz que tem feito deslocamento de equipes entre unidades para tentar suprir os 27 médicos em falta. A pasta, porém, não soube especificar, por cargo, as categorias afetadas pelo afastamento dos 187 profissionais.

Sobre possíveis dificuldades de moradores para serem atendidos nos bairros em que vivem, a SMS informou que as pessoas podem ir a outros locais. Isso porque as seis unidades com horário estendido até as 22h devem atender pacientes de qualquer região depois das 18h. A orientação para aqueles que apresentem sintomas leves de covid-19 é, inclusive, procurar estes pontos antes dos atendimentos de urgência e emergência. Se for constatada necessitada de testagem, o paciente será encaminhado do próprio local.

A prefeitura reconhece que houve "uma redução importante do fluxo de atendimentos, mas assegura que as unidades estão orientadas a atender os pacientes no momento de sua chegada, evitando agendamentos prolongados e atendendo todas as demandas independentemente da necessidade do paciente". Além disso, o município acrescenta que o afastamento de profissionais em razão da pandemia "ocasionou impactos diversos, em especial nos atendimentos de enfermagem".

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