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Vidas negras importam04/06/2020 | 05h00Atualizada em 04/06/2020 | 05h00

Gritamos faz muito tempo. Vocês é que não nos escutavam

O Carnaval ecoa em seus sambas aquilo que, muitas vezes, é silenciado pelo preconceito

Gritamos faz muito tempo. Vocês é que não nos escutavam Marcelo Oliveira/Agencia RBS
Restinga com o tema Mandela, em 2011 Foto: Marcelo Oliveira / Agencia RBS
Liliane Pereira
Liliane Pereira

O Carnaval é uma cultura que possibilita falar de muitas coisas da história do nosso país e, talvez, até do mundo inteiro. Eu ouso dizer, com base apenas na minha experiência pessoal carnavalesca, que um dos assuntos mais abordados nos temas-enredo das escolas é a cultura relacionada ao negro. E fazendo uma reflexão com os acontecimentos dos últimos dias em que, nos Estados Unidos e no Brasil, negros morreram vítimas de atitudes racistas, penso que não pode ser coincidência.

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A verdade é que o Carnaval ecoa em seus sambas aquilo que, muitas vezes, é silenciado pelo preconceito. Entre enredos gaúchos e cariocas, consigo listar pelo menos 15 ocasiões em que a temática foi abordada.

No Rio de Janeiro

  • Acadêmicos do Salgueiro - 1960 - Quilombo dos Palmares
  • Unidos de Lucas - 1968 - Sublime Pergaminho
  • Acadêmicos do Salgueiro - 1971 - Festa para um Rei Negro
  • Portela - 1972 - Ilu Ayê
  • Beija-Flor de Nilópolis - 1978 - A Criação do Mundo na Tradição Nagô
  • Acadêmicos do Cubango - 1979 - Afoxé
  • Unidos da Ponte - 1984 - Oferendas
  • Estação Primeira de Mangueira - 1988 - Cem Anos de Liberdade, Realidade ou Ilusão
  • Unidos de Vila Isabel - 1988 - Kizomba, Festa da Raça
  • Unidos da Tijuca - 2003 - Agudás, os que Levaram a África no Coração e Trouxeram para o Coração da África o Brasil

Em Porto Alegre

  • Candinha - 1993 - Um Anjo Negro de Asas Brancas Chamado Liberdade
  • Restinga - 2011 - Mandela
  • Imperadores do Samba - 2018 (não houve desfile em Porto Alegre) - Africanamente
  • Bambas da Orgia - 2019 - Cem Anos de Mandela
  • Acadêmicos de Gravataí - 2020 - Kilombo

O motivo dessa listagem é para responder a um questionamento que muitas pessoas têm feito em suas redes sociais sobre o motivo pelo qual os negros brasileiros não gritam seus protestos como os americanos. A minha resposta para essa pergunta é que nós gritamos. Estamos gritando faz muito tempo, de diversas formas. Vocês é que não estavam nos escutando.

É claro que existe uma explicação muito mais complexa para isso. A começar pela cultura e pela lei de cada país. Nos Estados unidos, o racismo é um ato bastante declarado entre as pessoas. No Brasil, o racismo é velado. Aqui, ele se dá na estrutura da sociedade que discrimina as pessoas pela cor da pele.

Combater o racismo é uma obrigação de todos. E para isso acontecer, é muito importante que pessoas brancas também se posicionem e falem sobre isso.

Ser antirracista vai além de colocar fotos de pessoas negras no seu perfil. Até porque essa atitude só vale se você realmente se identifica com essas pessoas, se acompanha o trabalho delas, se conhece a história delas. Ser contra o racismo é colocar todos os seus privilégios a serviço de uma causa que segue custando a vida de muita gente.

Nota

O tesoureiro da Realeza, Gilberto Leal de Aguiar, comunica que está se desligando das suas funções na escola depois de mais de 10 anos envolvido na agremiação. 

- Foi um período de muito trabalho, dedicação e, principalmente, honestidade. Agradeço a comunidade e os demais componentes pela colaboração. 

Aguiar, que também é um dos fundadores da velha guarda da escola, permanecerá participando dos desfiles como componente.


 
 
 
 
 
 
 
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