Manoel Soares e a despedida a alguém que tinha o amor no nome - Notícias

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Papo Reto04/12/2021 | 05h00Atualizada em 04/12/2021 | 05h00

Manoel Soares e a despedida a alguém que tinha o amor no nome

Colunista escreve para o Diário Gaúcho aos sábados

Manoel Soares e a despedida a alguém que tinha o amor no nome Manoel Soares / Arquivo Pessoal/Arquivo Pessoal
"Essa semana tive que me despedir de um membro da família", lamenta Manoel Foto: Manoel Soares / Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal

Somos medidos pela nossa capacidade de brigar pela vida. A maioria até acha que está preparada para essa luta. Metemos uma marra dizendo que vamos fazer e acontecer se uma situação complicada vier, mas, a maioria de nós, treme. Essa semana eu tive que me despedir de um membro da família chamado Adriana Amorim. Falando assim, para você leitor, parece só mais um nome, eu entendo, mas queria que você tivesse conhecido. 

Ela trocou socos com um câncer pelos últimos dois anos, tipo UFC mesmo. O câncer dava uma porrada e ela devolvia com um largo sorriso. Era aquelas pretas de dentes grandes e olho esbugalhado como se tivesse querendo ver tudo que o mundo tinha para entregar. Quando convidei ela e meu irmão para saírem do interior de São Paulo para morar em Porto Alegre, ela veio sem medo. Saiu do conforto de uma casa bacana para o miolo da Vila Cruzeiro e lá criou meus sobrinhos. Achei que a doença tiraria dela a garra, pois é natural que algo que devora você de dentro para fora te deixe com a estima baixa, mas não aconteceu. Ela manteve a cabeça em pé. Eu sempre me perguntei de onde ela tirava força, por muito menos vi pessoas fortes jogarem a toalha, mas quanto mais a vida batia, mais ela levantava. 

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Semana passada fui passar o dia com ela e rimos muito lembrando dos seriados japoneses da Manchete quando assistíamos Jiraya e Jiban. Ela sem forças para rir, mas me dava sustos de tanta gargalhada. Ficou espantada em saber que as crianças do desenho Caverna do Dragão estavam mortas e que Vingador e Mestre dos Magos são a mesma pessoa. Imaginem, últimos dias de vida e a pessoa falando sobre desenho animado. Os poucos momentos que via o sorriso abandonar seu rosto era para olhar para os filhos, mas a ausência do sorriso não trazia dor, mas a serenidade do amor. Um amor que era mais forte que a metástase. Depois da sua partida que entendi seu sobrenome: Amorim.

Uma pessoa que leva a palavra amor no nome tem uma missão especial nessa vida. Obrigado pelas lições e descanse, porque lutou bravamente.

 
 
 
 
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