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Nova rotina15/02/2022 | 22h26Atualizada em 27/02/2022 | 14h09

Dia tranquilo, mas cheio de dúvidas: usuários, motoristas, empresas e EPTC avaliam estreia de ônibus sem cobrador

Órgão de trânsito da Capital considera que não houve registro de problemas sem solução nesta terça; passageiros e trabalhadores citaram acúmulo de funções e receio com segurança no novo modelo

Dia tranquilo, mas cheio de dúvidas: usuários, motoristas, empresas e EPTC avaliam estreia de ônibus sem cobrador Ronaldo Bernardi / Agencia RBS/Agencia RBS
Foto: Ronaldo Bernardi / Agencia RBS / Agencia RBS

Aos 60 anos de idade e 40 de profissão, Claudir Balestrin começou a reinventar sua atuação nesta terça-feira (15). Foi a primeira vez em que ele acumulou as funções de cobrador e motorista, na linha 7052-Ceasa/Aeroporto, que circula entre o Centro e a zona norte de Porto Alegre. Apesar de conseguir cumprir os horários das viagens com atrasos de poucos minutos por conta dos pagamentos em dinheiro no turno da manhã, ele alerta para a necessidade de melhorias nas condições para desempenhar a nova tarefa.

— Aceitei essa mudança porque sigo em um horário e uma linha que são confortáveis, já conheço. Se mudarem muito, não vai mais valer a pena para mim, porque estamos ganhando menos de R$ 300 a mais para fazer tudo que o cobrador fazia — comenta o motorista, sobre o adicional de 10% para a atividade extra.

Entre a segunda (14) e a terça (15), nenhum dos sete passageiros com quem a reportagem conversou sobre o assunto a bordo dos dois ônibus da linha 7052-Ceasa/Aeroporto se mostrou favorável à mudança. Ainda que a grande maioria acesse o veículo com o cartão TRI em mãos e não precise de nenhuma ajuda do motorista para realizar o pagamento, os questionamentos eram feitos pensando nas funções paralelas que os cobradores desempenham no transporte público da Capital.

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Cícero Oliveira, 55 anos, trabalha como fiscal na Ceasa e vai até lá a bordo de um ônibus dessa linha diariamente. Ele pondera que para alguns profissionais pode ser mais difícil aprender a nova função.

— Em alguns casos, até por conta da idade, pode ser difícil aprenderem a nova função ou se posicionar em outro emprego. O que vai acabar acontecendo é que os passageiros vão ajudar o motorista no embarque e desembarque. Eu mesmo faço questão de auxiliar sempre — afirma.

Já Alex Sandro Lima, 45, vigilante e passageiro do ônibus conduzido por Balestrin, reclamou do acúmulo de funções do motorista:

 — Não é fácil. O motorista vai fazer dois trabalhos e ganhar por um. 

A avaliação da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) ainda é preliminar, mas tida como positiva neste primeiro dia. A operação da manhã foi tranquila, segundo a empresa, sem registro de problemas sem solução. A EPTC afirma que se todos cobradores fossem retirados de todos veículos da cidade, haveria uma redução de R$ 0,90 no preço da passagem. O fim do serviço de cobrador ocorrerá de forma gradual em até quatro anos.

— O passageiro é o foco de todas as ações que promovemos. Se olharmos de forma isolada cada uma das ações, talvez não representem de fato uma mudança. Mas o conjunto de ações, incluindo a retirada do cobrador, vai repercutir em um melhor serviço com menos custo. O objetivo é viabilizar o transporte de passageiros em Porto Alegre, pois vemos que a atual modelagem não se sustenta mais — argumentou o diretor-presidente da EPTC, Paulo Ramires, em entrevista ao Gaúcha+, na Rádio Gaúcha.

Conforme Ramires, o atual sistema de ônibus da cidade é muito complexo e ainda se discute  qual modelo será implementado em Porto Alegre. Nesta terça-feira, o prefeito Sebastião Melo está em Brasília, em busca de apoio federal para o transporte público. O diretor-presidente reforça que o governo municipal e a EPTC assumiram o compromisso de acompanhar a requalificação e a recolocação dos cobradores no mercado de trabalho:

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— O que podemos garantir é que todos esses profissionais terão a oportunidade de requalificação. Seja para atuar em uma atividade dentro do sistema de transporte ou até mesmo uma atividade nova. Junto a isso, nós já estamos trabalhando também com outras ações isoladas da prefeitura para que a gente consiga oportunizar uma recolocação quase que imediata. 

Conforme o diretor-presidente, os motoristas estão sendo treinados para quando houver a necessidade de operar o elevador para ajudar os passageiros cadeirantes.

 — Ele (motorista) já descia anteriormente para atuar com o cobrador, agora ele atuará sozinho. É importante ressaltar que essas linhas que nós iniciamos as operações hoje, apresentam o menor número de demanda. Na medida em que identificamos qualquer necessidade de aprimoramento ou treinamento mais focado nesse tipo de situação, iremos realizar — garante.

Sobre o espaçamento nas viagens, o diretor-presidente destaca que a frequência atual é menor que em 2019, no período pré-pandemia, e a operação é balizada nos horários de pico: 

— Hoje nós estamos trabalhando em torno de 60% da operação que tinha em 2019. Não atingimos ainda 100%, e acho difícil que a gente retome aquele padrão de operação, aquela demanda que tínhamos em 2019. 

O que muda para o motorista

Ao menos uma modificação já foi realizada para adaptar o serviço a um só profissional no ônibus. Um botão verde foi instalado no painel, por exemplo. Quando um passageiro paga a passagem para Balestrin, ele recebe o valor, devolve o troco e precisa acionar esse botão para liberar a catraca. O restante da estrutura, incluindo o sensor do cartão automático ao lado da roleta, ainda não sofreu alterações.

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Na primeira manhã da nova operação, menos de 25% dos passageiros faziam o pagamento da passagem em dinheiro — as 12 linhas que foram as primeiras a ficar sem cobrador foram escolhidas justamente por essa característica. Ainda assim, em pelo menos duas oportunidades, o motorista precisou devolver o troco com o veículo parado na sinaleira, com os passageiros sendo transportados por alguns metros em pé ao seu lado, esperando para avançar ao outro lado da catraca.

— Estou um pouco atucanado, mas com o tempo a gente vai melhorando. É uma mudança, quem não se adaptar vai cair fora porque sempre tem algum colega que vai topar fazer — afirma o motorista, que entrou na empresa em 1982 e ficou apenas um ano como cobrador, conseguindo se aposentar em 2007.

A porta traseira e os degraus que levam o passageiro a desembarcar na calçada, antes observada pelo cobrador em um ângulo privilegiado de cima da cadeira, agora dependem do espelho de 20 centímetros por 15 fixado em cima da porta de entrada frontal e refletindo outro, redondo, na saída. A atenção de Balestrin terá de se multiplicar em várias a cada parada do ônibus, ele ressalta:

— Aumenta o risco de a gente arrancar o veículo com alguém ainda terminando a descida porque não vejo direito os degraus com o ônibus cheio, ou então de ir lá atrás para operar o elevador de cadeirante e algum malandro levar o dinheiro que está aqui, porque os passageiros não vão querer esperar para subir.

Pelo menos na primeira manhã de operação do carro de número 6130 na linha 7052, não havia nenhum dispositivo de segurança para bloquear a abertura da tampa da caixa onde o dinheiro das passagens era guardado pelo motorista. Também não havia câmera voltada para o condutor. Ele lembra de histórias violentas, acontecidas com colegas de profissão, que envolviam facadas ou tiros de passageiros revoltados por não conseguirem uma carona de graça ou fruto de alguma outra discussão.

— E se errar o troco sou eu que desembolso — complementa Balestrin.

Sugestões de motorista

Balestrin tem ideias para melhorar a própria rotina de trabalho, mas que dependem de adaptações promovidas pelas empresas. A adoção de pagamento via QR Code — código de barras com leitura através da câmera do celular conectado à internet — é uma alternativa que diminuiria ainda mais a circulação de valores em espécie nas mãos do motorista.

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— Quanto menos dinheiro aqui, melhor — alerta, se referindo à caixa nada forte com tampa de plástico, acima do motor, entre a alavanca de câmbio manual das marchas do veículo e a porta de entrada.

Em relação ao controle do número de passageiros e dos horários de cada viagem, Balestrin diz que o ideal seria que o monitor dessas informações pudesse ser conferido por ele ao lado do volante. A cada chegada ao Terminal Júlio de Castilhos, no Centro, é preciso que ele saia do seu assento para ir até o local antes ocupado pelo cobrador para anotar, com papel e caneta, os dados do trajeto.

ATP prevê pagamento por Pix

Antônio Augusto Lovatto, engenheiro de Transportes da Associação dos Transportadores de Passageiros (ATP), explica que a retirada dos cobradores faz parte de um projeto piloto em processo inicial. Ele afirma que, neste primeiro momento, há agentes da ATP nos ônibus em circulação observando os aspectos de segurança para o aprimoramento do serviço. 

Ele ressalta que a meta da ATP é reduzir ao máximo o número de usuários pagantes com dinheiro, de 20% para 8% a 9%, nos próximos anos. Para isso, há uma série de medidas sendo elaboradas. Segundo ele, nos próximos três meses, o usuário que ainda não tiver o cartão poderá usar um aplicativo e gerar um QR Code pelo celular e apresentá-lo no validador. Além disso, futuramente o pagamento também poderá ser feito via Pix

— As questões de espelhos (para a visualização do motorista) que algumas pessoas levantam estão em análise. Por isso, neste primeiro momento, iniciamos com as linhas com menor número de passageiros. Os ônibus circulam mais vazios e têm menos gente em pé. Sabemos que nas linhas que transportam mais passageiros os motoristas teriam mais distrações. Por isso, vamos trabalhar na diminuição da circulação de passageiros pagantes. Uma coisa é transportar 20 passageiros e ter 20% de pagantes, que seriam quatro pessoas. Outra coisa é transportar 80 passageiros com 16 pagantes — frisa. 

O engenheiro destaca que a câmera de segurança no transporte coletivo de Porto Alegre não é obrigatória, à exceção dos ônibus acoplados, que não fazem parte das linhas selecionadas para funcionar sem cobrador. Segundo ele, 66% das cidades brasileiras não têm cobrador ou não contam com essa função em parte da frota, e Porto Alegre seria a última capital a adotar esse sistema. 

Outro ponto sensível que pode gerar insegurança para os motoristas e passageiros refere-se à posição da caixa onde o dinheiro é alocada. A localização não é padronizada e não há trava de segurança. 

— Em alguns ônibus estamos colocando do lado esquerdo, em outros, estamos colocando no meio, e estamos avaliando a questão da trava. Precisamos entender que o projeto ainda está em fase de testes — sublinha. 

Com relação à remuneração dos motoristas que acumularão uma segunda atividade, o engenheiro explica que foi acordado um aditivo referente a 10% do salário-base do motorista nos dias em que ele desempenhar as duas funções.

Sindicato sugeriu que aditivo em contrato não fosse assinado

 O Sindicato dos Trabalhadores Rodoviários de Porto Alegre (Stetpoa) diz que não houve qualquer acordo com as empresas de ônibus quanto ao acúmulo de funções do motorista nem sobre eventual compensação financeira por isso. Ao contrário, o sindicato orientou para que os profissionais não assinassem o aditivo de contrato. "Isso vai estimular a saída do cobrador, e esse não é objetivo da grande maioria que faz parte do transporte público", aponta o Stetpoa.

A entidade tem acompanhado o novo formato de trabalho dos motoristas e o encaminhamento dos cobradores para reciclagem profissional. Segundo o Stetpoa, existe uma diretoria constituída com 46 nomes, e mais de 30 buscam informações constantemente sobre a situação. "Principalmente porque precisam, antes de mais nada, receber o curso", ressalta o sindicato, sobre o treinamento dos profissionais. "O sindicato está indo de empresa em empresa e descobrindo quem era cobrador e foi para lavagem, portaria, administração, e assim por diante."

Muitos cobradores têm virado motoristas e estão sendo promovidos, de acordo com o Stetpoa. "Inclusive parte desses que passaram a cobrar, apesar da recomendação do sindicato para que não fosse assinado o aditivo, eles são cobradores que viraram motoristas."

 
 
 
 
 
 
 
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