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Céu, nuvens e pipas28/04/2022 | 05h00Atualizada em 28/04/2022 | 05h00

Viamão inspira estampa de chinelos

Artista Jamaikah Santarém buscou referências na Vila Helenita em projeto para colorir sandálias da marca Havaianas

Viamão inspira estampa de chinelos Bruno Alencastro / Outdoor Social / Divulgação/Outdoor Social / Divulgação
Com a arte, a gaúcha quis trazer de volta as lembranças afetivas que guarda da época em que viveu na região Foto: Bruno Alencastro / Outdoor Social / Divulgação / Outdoor Social / Divulgação

Muros, papéis e agora chinelos estão entre as "telas em branco" que uma artista gaúcha pode dizer que já pintou. Jamaikah Santarém foi uma das selecionadas para participar do projeto Quebrada Cria, da marca Havaianas com a Gerando Falcões, organização que atua em rede com 309 ONGs em 25 Estados.

Para os desenhos, os participantes deveriam se inspirar nos lugares de onde vieram. No caso de Jamaikah: a Vila Helenita, em Viamão, onde morou boa parte de sua vida. A arte, que estampa um dos chinelos da coleção, é composta por um céu azul, nuvens e pipas.

— Algo que me remetia muito à minha infância, lá na vila, era essa coisa do céu, da liberdade, das pipas, da brincadeira na rua — explica a artista.

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"Meio rural"

"Com um ar meio rural" e "extremamente pequena" é como Jamaikah descreve a Vila Helenita. A artista, que hoje tem 36 anos, foi de Porto Alegre para Viamão com a família por volta dos 11. Mas a ligação com a Capital se manteve, já que seguiu estudando em uma escola no bairro Rio Branco. 

E foi também na cidade que fez sua primeira arte na rua.

— O que me fez alimentar essa vontade de pintar na rua foi, na minha adolescência, eu começar a acompanhar os grafites dos artistas que usavam a rua, em Porto Alegre, para se manifestar. E daí eu comecei a perceber, a conhecer os traços, a já reconhecer o grafite das pessoas — lembra.

Hoje, Jamaikah trabalha com produção de objetos na área de direção de arte para cinema e publicidade, na cidade de São Paulo. Mas a pintura de rua é algo que leva consigo. E que a trouxe experiências como fazer trabalhos, junto a colegas, no Chile e na Venezuela.

Figuras femininas

A ida para São Paulo, por sua vez, ocorreu em 2014 — a artista ganhou uma bolsa para estudar na Escola Livre de Cinema e Vídeo de Santo André. A mudança foi de mala e cuia para o Estado quando viu as oportunidades que teria por lá.

Apesar da distância, a Vila Helenita ainda é inspiração para a gaúcha, que tem nas figuras femininas o principal tema de suas pinturas de rua. Ela acredita que seu desenho, que não segue um padrão, tem influência das várias mulheres que já estiveram a sua volta.

— Nunca percebemos, mas geralmente as comunidades, as quebradas, são matriarcais. É sempre a mãe, a tia, a avó, as amigas, a rede de apoio acaba sempre sendo uma mulherada. Eu acho que, ali na vila, eu comecei a ter essa sensação mais forte dessa mulherada, dessa rede de apoio, de sempre estar um ajudando o outro — pontua.

Quebrada Cria

Por meio da indicação de um coletivo da região onde mora, Jamaikah enviou um portfólio para uma seleção — os detalhes do destino eram confidenciais na época. Foi na metade do ano passado, então, que ela foi informada que havia sido selecionada para um projeto: o Quebrada Cria.

Segundo a diretora de Marketing de Havaianas Brasil, Mariana Rhormens, a proposta da iniciativa é fortalecer e impulsionar artistas de comunidades do país. As indicações vieram de líderes de rede da Gerando Falcões. Ao final, uma lista foi fechada e a empresa e organização avaliaram o trabalho dos artistas. A escolha levou em conta aspectos como a diversidade de estilos e traços artísticos e de regiões. 

Além de Jamaikah, Robézio e Tereza, do Acidum Project (de Fortaleza e Caucaia, no Ceará), Luis World (de Contagem, em Minas Gerais) e Wanatta (de Belo Horizonte, capital mineira) foram selecionados. Com os nomes definidos, foi dada a largada no processo de criação. Segundo a diretora de marketing, 7% do lucro líquido com a venda das sandálias é revertido para o projeto Favela 3D, da Gerando Falcões, e a atriz Taís Araújo, promotora da ação nas redes sociais, doou seu cachê para a organização. 

Dos pés ao muro

A artista gaúcha criou sua estampa em cerca de duas semanas: ela pintou os elementos a mão, digitalizou e compôs a arte final em programas. A venda dos chinelos da coleção iniciou em 14 de março. Para Jamaikah, ver o resultado desse processo tem sido positivo:

— Estou extremamente emocionada, feliz pelos meus pais poderem ver isso. Foram eles as pessoas que mais me incentivaram. Estou feliz também porque acredito que esse vai ser um projeto que vai dar continuidade e que haverão outros crias das quebradas que também vão poder ter essa oportunidade.

Ainda em março, em parceria com a empresa Outdoor Social, Jamaikah fez uma pintura artística em um muro de Viamão, com base em sua estampa. A arte está na Rua Esmerilda da Silva Goulart, na Vila Elza — que fica próxima à Helenita.

Produção: Isadora Garcia

 
 
 
 
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