Educação pública
Conheça o segredo da escola mais antiga de Gravataí
A escola Emília Viega da Rocha completou 110 anos no sábado. Ela é referência no Ensino Médio para sete escolas da região de Morungava

Às margens da ERS-020, em Gravataí, uma centenária vem dando a receita de como uma escola pode se tornar referência para a comunidade e, de geração em geração, provar que o ambiente escolar pode ser afetivo e marcar positivamente a vida dos estudantes.
No sábado, a Escola Estadual de Ensino Médio Emília Viega da Rocha completou 110 anos. Na comemoração, as homenagens deixaram evidente a relação das pessoas com a instituição que é a mais antiga na cidade e a única de Ensino Médio na região. Desde os muros pintados com desenhos infantis até depoimentos de ex-alunos, que voltam à escola para contar dos progressos, atribuindo em parte ao carinho recebido na vida escolar e até mesmo aos puxões de orelha pedagógicos, o que se vê é a satisfação de participar de uma história de mais de um século.
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De acordo com a diretora, Beatriz Celoi Lima Susin, que leciona há 25 anos na instituição, as primeiras aulas foram ministradas numa casinha no Bairro Vira Machado, numa área mais alta, mas bem próxima de onde funciona hoje a escola. Desde 1972, as atividades são realizadas no espaço atual, que foi construído a partir de um mutirão do Exército.
Inicialmente, havia turmas apenas do primeiro ao quarto ano. A partir da ajuda de pais de alunos, na década de 1980 foram erguidas três salas de aula, o que permitiu que fosse avançando gradativamente a ampliação do atendimento até chegar ao Ensino Médio em 2002.
– Os pais abraçam a escola como uma extensão da casa. Somos uma família, temos que trabalhar juntos – diz a diretora.
– Queremos formar para a vida. Eles podem ir mais longe, além de Morungava (bairro da escola), do Rio Grande do Sul, do Brasil. Mas têm que ter regras, limites porque a escola é o ensaio da vida real – explica.
Cuidado
– Somos meio pai e mãe deles (os alunos) e, como pai e mãe, damos carinho, mas puxamos a orelha também – informa Beatriz.
Há situações nas quais este perfil fica bem evidente:
– Se eu ouço um palavrão, eu digo: "olha, gente, vocês estão num espaço escolar, vamos cuidar com o vocabulário".
A interferência acontece também no caso da pegação entre namorados:
– Os beijos devem acontecer nos limites de uma escola e não de uma balada. Conversamos também para dizer que a sexualidade não é crime, não é feio, mas a escola não é o local – esclarece.
– Os beijos devem acontecer nos limites de uma escola e não de uma balada. Conversamos também para dizer que a sexualidade não é crime, não é feio, mas a escola não é o local – esclarece.
Mas o grande empenho da equipe diretiva e professores é em blindar a escola da violência que antes parecia distante da Zona Rural, mas que está batendo à porta.
– Falamos que as coisas existem, que vai aparecer quem ofereça (drogas) e quem os desafie a usar, então é importante estarem preparados.
Já a merendeira Josiane Teixeira, que atua na escola há 12 anos, aponta os alunos como personagens importantes na história da escola.
– Eles fazem a diferença, há a cultura do respeito, do carinho um pelo outro – explica.
A colega dela, Célia da Silva, há quatro anos na escola, concorda. Ela conta que a filha estudou na escola, faz magistério e, em breve, pretende fazer estágio lá.
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Elogios em prosa e verso
Há três semanas, o aluno Matheus Fraga de Souza, 15 anos, deixou o Colégio Piratini, na Capital, para estudar na Emília Viega da Rocha. A adaptação foi tranquila, tanto que ele se sentiu à vontade para expressar a satisfação por meio de um poema exposto na entrada da escola, em homenagem pelos 110 anos. No texto, ele destaca a amabilidade das pessoas, a beleza das salas e agradece por embarcar numa aventura em meio aos livros.
– Eu me mudei recentemente e me senti acolhido. É uma escola mais carismática. Eu gosto de vir para cá – disse.
Já a colega Cássia Lis Oliveira de Campos, 18 anos, pretende fazer faculdade de Matemática para, no futuro, quem sabe, lecionar na Emília.
– Aqui os alunos interagem mais com os professores, até sobre problemas de família podemos conversar com eles. Os alunos se dão bem. Adoro o colégio – contou Cássia, que também tem uma irmã na escola.

Neta da professora homenageada
Emília (1918-1961) era uma professora leiga da região de Morungava, em Gravataí. Incentivadora da educação, ela gostava tanto de lecionar que o marido criou uma sala para que ela ensinasse aos alunos. O nome é uma homenagem a ela, embora nunca tenha lecionado na escola.
Vários parentes de Emília estudaram na instituição. Uma delas é Aline Alves, 34 anos, que fez o Ensino Fundamental na década de 1980 e leciona há 13 anos no colégio que leva o nome da avó. Ela diz ter um vínculo afetivo muito forte com a escola. Hoje, ela tem ex-professoras como colegas de trabalho.
Já o afilhado dela, Lucas Motta Alves, 15 anos, do segundo ano do Ensino Médio, é bisneto de Emília. É comum, na escola, a passagem de várias gerações de uma mesma família.
– Minha avó era muito bem quista na comunidade. Minha mãe também foi funcionária da escola. É um prazer muito grande trabalhar na escola que faz parte da minha história. É um ambiente saudável, as pessoas se dão bem e os alunos são felizes aqui – destaca Aline, que leciona Sociologia e Seminário Integrado.
O segredo do sucesso
/// Sempre acolher bem qualquer pessoa.
/// Mesmo que não se tenha interesse no conteúdo do que está sendo falado, é sinal de respeito ficar em silêncio e ouvir.
/// Nenhum aluno é igual ao outro e cada um pede o tratamento que quer ter.
/// Respeito entre alunos e professores é fundamental.
/// Pais e professores formam uma rede e o objetivo é o cuidado com os alunos. A comunicação entre as famílias e a direção ajuda na melhor maneira de lidar no dia a dia com as demandas dos estudantes.
/// A segurança dos alunos é prioridade: nem que isso restrinja eventos nos quais a escola ficaria aberta à comunidade, como uma festa junina, por exemplo, que há dois anos conta apenas com a participação dos alunos e pais.
A escola
/// Desde sua fundação até 1972 (quando mudou-se para as dependências usadas até hoje) a instituição chamou-se Escola Isolda do Vira Machado.
/// Atende 550 alunos (Ensinos Fundamental e Médio, nos turnos manhã, tarde e noite) e conta com o trabalho de nove funcionários e 38 professores. Pelo menos um terço dos docentes é de ex-alunos.
/// É referência como escola de ensino médio (oferece desde 2002) para sete instituições de ensino fundamental da região. Atende estudantes dos bairros Morungava, Neópolis, Santo Antônio de Pádua, entre outros.
/// Média no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb): 5,5 (a média nacional é 5,2).
/// Devido à distância, boa parte dos estudantes conta com transporte escolar. A instituição organiza a entrada e saída dos alunos a partir dos horários do transporte.
/// As salas são pintadas de cores diferentes, conforme a cromoterapia. A ideia foi colocada em prática na época das salas-ambiente, nas quais os alunos ocupavam de acordo com a disciplina. As reuniões, por exemplo, eram numa sala verde, porque acalma. Já as aulas de matemática eram dadas numa sala amarela, mais vibrante, que chama atenção. As salas-ambiente foram desativadas pelo aumento do número de alunos, mas as paredes seguem coloridas.
/// É considerada pelo censo escolar como uma escola de campo, embora não lide com sementes e tratores, por exemplo. Fica, sim, na zona rural de Gravataí. Tem uma área de preservação da mata atlântica nos fundos da instituição.
As mais antigas
/// 1869: Instituto Estadual de Educação General Flores da Cunha, de Porto Alegre
/// 1872: Escola Estadual de Ensino Médio Pastor Heinrich Hunsche, de Linha Nova
/// 1879: Escola Estadual de Ensino Fundamental Maria José Mabilde, de Porto Alegre
/// 1884: Escola Estadual de Ensino Médio Três de Outubro, de Porto Alegre
/// 1892: Instituto Estadual de Educação Romaguera Corrêa, de Uruguaiana
/// 1900: Escola Estadual de Ensino Fundamental Antônio Soldatelli, de Flores da Cunha
/// 1900: Colégio Estadual Júlio de Castilhos, de Porto Alegre
/// 1901: Instituto Estadual de Educação Olavo Bilac, de Santa Maria
/// 1902: Escola Estadual de Ensino Médio Delfina Dias Ferraz, de Montenegro
/// 1902: Escola Estadual de Ensino Fundamental Maria Saturnina Ruschel, de Feliz
/// 1902: Instituto Estadual de Educação Pereira Coruja, de Taquari
/// 1906: Escola Estadual de Ensino Médio Emília Viega da Rocha, a mais antiga de Gravataí e a 14ª mais antiga do Estado.
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