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Transporte público10/12/2014 | 09h08

Faltou ônibus da Carris? Está parado na garagem, sem manutenção

Má gestão está entre os problemas que paralisam o funcionamento dos coletivos em Porto Alegre. Por dia, até 250 viagens deixam de ser realizadas pela empresa

Faltou ônibus da Carris? Está parado na garagem, sem manutenção Adriana Franciosi/Agencia RBS
Foto: Adriana Franciosi / Agencia RBS

O sucateamento de uma empresa que já foi referência nacional em transporte público tem deixado passageiros na mão e funcionários sem ter como trabalhar. De parafusos a itens do motor, a falta de peças faz com que quase 70 ônibus da Carris – 18% dos 371 que compõem a frota – fiquem estacionados na oficina. Enquanto isso, usuários como a auxiliar de cozinha Rosi Maria Barbosa, 41 anos, perdem tempo nas paradas.

— Demorou meia hora para chegar, eu já estava me estressando — contou Rosi a bordo do T2A, na manhã de sexta-feira passada.

Parece, mas não foi o ônibus de Rosi que atrasou. Na verdade, a viagem do horário das 10h45min não aconteceu. Com isso, o intervalo que deveria ser de 15 minutos, passou para meia hora. 

— Hoje, se eu quero fazer qualquer coisa, saio de casa duas horas antes, porque não sei a hora que vou chegar — reclama a comerciante Gelci Terezinha Bernardo, 60 anos.

Confira: prejuízo anual da empresa passou de R$ 1,8 milhão para R$ 40 milhões em três anos

Horários não são cumpridos

A precaução de Gelci se justifica. Com base em uma inspeção realizada na semana passada, o Conselho Municipal de Transporte Urbano (Contu) estima que cerca de 250 viagens não são cumpridas diariamente pelos ônibus da Carris — aproximadamente 5,75% do total de trajetos cumpridos pela empresa, que nesta terça-feira foi de 4.349.

— Quando estivemos lá (na oficina da Carris), havia 68 ônibus parados. Em condições normais, este número não poderia passar de 35 — analisa o presidente do Contu, Jaires Maciel.


Rosi (E) e Gelci sofrem com a demora nas linhas (Foto Fernando Gomes/Agência RBS)

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Motoristas é que escutam os desaforos

Com a falha nos horários, as paradas ficam cheias e os passageiros irados. Sobra para o motorista do próximo ônibus que passa.

— Tem passageiro que xinga até a nossa quinta geração, ficam achando que a culpa é do cobrador e do motorista — conta o motorista Wenceslau Machado, integrante da comissão de funcionários.

Não à toa, muitos servidores se afastam do trabalho por estresse. Só em novembro, a Carris teve 1.626 dias de atestado apresentados por 490 funcionários.

— Hoje, motoristas e cobradores estão muito suscetíveis a agressões. Há um desgaste psicológico muito grande — admite o presidente da Carris, Sérgio Zimmermann.

— Trabalho na Carris há 32 anos e nunca foi assim. Hoje, tenho vergonha de trabalhar aqui. Têm vilas em que a gente escuta cada coisa dos passageiros... — relata o motorista Sérgio Fagundes da Silva, 56 anos.

Os motivos

Entre os motivos da crise, o presidente da Carris, Sérgio Zimmermann, cita a demora para a compra de peças – que dependem sempre de licitação –, a falta de mecânicos e o excesso de atestados médicos.

Segundo ele, houve um dia em que 70 ônibus ficaram parados na sede da empresa. Zimmermann afirma que, em média, 50 ônibus ficam parados por dia – o ideal seriam até 35. Porém, reconhece que, neste ano, o índice de cumprimento de viagens da frota caiu de 92% para 87%.

— Em janeiro, receberemos novos carros — afirma Sérgio.

Mecânicos estão sobrecarregados

Segundo Sérgio Zimmermann, 50 ônibus que estão encerrando sua vida útil são o foco do problema. Mas o torneiro mecânico da Carris Antônio Magalhães garante que os ônibus mais novos também estão estragando.

Além da falta de estrutura de trabalho, os mecânicos estão sobrecarregados. 

— É uma média de três ônibus para cada mecânico. Com tanta coisa, tu não consegues fazer teu trabalho com calma, está sempre sob pressão — diz Antônio, mecânico da Carris há 26 anos.

Por falta de peças, veículos ficam na garagem, deixando motoristas e cobradores parados, sem ter como trabalhar.

Na falta de alternativas, é comum mecânicos retirarem peças de um veículo em desuso para tentar consertar outro, troca que, entre eles, é chamada de "canibalismo".

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Transtornos para os usuários

Nem sempre foi assim, mas a servidora aposentada Célia da Silva, 68 anos, já se habitou a esperar pelo menos 15 minutos pelo T6. Também, pudera: na terça-feira da semana passada, a linha operou com cinco horários a menos somente à tarde. Com a falta de horários, quem aguarda pelos ônibus das transversais na Avenida João Pessoa precisa de paciência extra, especialmente no começo da manhã e no fim da tarde.

— O pior é não conseguir sentar quando o ônibus chega, porque ele vem lotado — conta Célia.

O radialista José Carlos Ayres, 50 anos, chega a ficar uma hora esperando o T2A no Morro Santa Tereza para retornar ao IAPI no final do expediente:

— Cansei de ficar 40, 50 minutos na parada. Parece que estão em operação tartaruga.

Contas no vermelho

Neste ano, a previsão é de que o prejuízo da Carris chegue a R$ 40 milhões – valor que receberá aporte financeiro da prefeitura. O prejuízo começou a ser registrado a partir de 2011.

Um relatório do Tribunal de Contas do Estado não apontou irregularidades quanto ao sucateamento da frota, mas falta de pessoal e problemas de gestão. O material aguarda parecer do Ministério Público de Contas (MPC).

Promessa de melhoras

Por meio de contrato emergencial – alternativa que dispensa o concurso – o presidente da Carris Sérgio Zimmermann afirma que irá contratar em breve cem funcionários para cargos de motoristas e cobradores e 20 mecânicos. No começo de janeiro, devem chegar 35 veículos convencionais mais 15 articulados.

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