Sem funcionários para limpeza, diretora de escola estadual de São Leopoldo atua como faxineira para manter instituição limpa - Notícias

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Seu Problema é Nosso13/03/2020 | 07h00Atualizada em 13/03/2020 | 07h00

Sem funcionários para limpeza, diretora de escola estadual de São Leopoldo atua como faxineira para manter instituição limpa

No colégio, além de um profissional de serviços gerais, também há falta de professores, merendeiras, secretárias e monitores de educação especial

Sem funcionários para limpeza, diretora de escola estadual de São Leopoldo atua como faxineira para manter instituição limpa Camila Bengo/Diário Gaúcho
A diretora, Hildeburg, faz a limpeza dos banheiros e espaços de uso coletivo Foto: Camila Bengo / Diário Gaúcho

— A situação está caótica.

É assim que a diretora Hildeburg Buhler, 54 anos, define o dia a dia na Escola Estadual de Ensino Médio Emílio Sander, de São Leopoldo, desde o início do ano letivo de 2020, no último 3 de março (a retomada das aulas foi tardia devido a greve do ano passado). À instituição, que funciona em três turnos e atende 1.071 alunos desde as séries iniciais até a Educação de Jovens e Adultos (EJA), caberia a alcunha de "escola onde falta tudo". 

Ali, há defasagem de funcionários e professores para duas turmas de anos iniciais e para ministrarem alguns períodos das disciplinas de Língua Portuguesa, Literatura, Ensino Religioso, Produções Interativas e Projeto de Vida – até terça, também faltava professor de Educação Física, mas o profissional chegou na manhã de quarta. 

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A lista de afetados é longa: duas turmas do sétimo ano do Ensino Fundamental estão sem aulas de Língua Portuguesa. Uma turma do primeiro ano do Ensino Médio na modalidade EJA está sem Literatura. Duas turmas do EJA e uma do nono ano do Ensino Fundamental estão sem aulas de Ensino Religioso. Três turmas dos anos iniciais estão sem aula de Produções Interativas (disciplina que integra o currículo do primeiro ao quinto ano do Ensino Fundamental). Duas turmas do sétimo ano e uma do sexto ano do Fundamental estão sem professor para a carga horária de Projeto de Vida (disciplina que integra o currículo do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental). E, duas turmas dos anos iniciais estão totalmente sem aulas. 

Insuficiências

Além da falta de docentes, desde o início do ano não há nenhum funcionário para realizar a limpeza do colégio, de modo que a própria direção e professores têm feito a higienização dos espaços. A biblioteca da escola, que conta com acervo de quase 20 mil livros, também está fechada por falta de bibliotecário. 

Na cozinha, apenas duas merendeiras precisam dar conta de preparar o alimento dos mais de mil alunos que circulam diariamente pelo refeitório, nos três turnos. Na secretaria, o expediente é apenas nas segundas e quartas, pois só há uma secretária cumprindo carga horária de 20 horas semanais. 

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Para completar, a instituição passou a contar com apenas uma monitora de educação especial, também com carga horária de 20 horas semanais, para prestar auxílio aos cerca de 50 alunos com necessidades especiais que estão matriculados na Emílio Sander.

Direção: Seduc foi informada da situação

De acordo com a dirigente, desde o ano passado a Secretaria Estadual de Educação (Seduc) tem sido informada das necessidades de recursos humanos da escola, no que diz respeito a professores e funcionários. Em relatório do quadro funcional enviado à 2ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE), no dia 15 de janeiro, os problemas foram reiterados. 

Em visita realizada pela diretora, na tarde da última terça-feira, mais uma vez a CRE foi informada da situação. Porém, segundo a direção, não houve retorno por parte da Seduc ou da coordenadoria –  exceto quanto ao envio de um professor de Educação Física, que, de acordo com Hildeburg, chegou na escola na quarta-feira de manhã sem aviso prévio por parte dos órgãos. 

Diretoras viraram faxineiras

Para manter a instituição em boas condições, uma parceria entre os estudantes e a direção foi firmada. A equipe da diretoria se responsabilizou pela higienização dos banheiros e espaços coletivos, enquanto a limpeza das salas de aula ficou sob a responsabilidade dos alunos. 

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Foto: Camila Bengo / Diário Gaúcho

Todos os dias, faltando alguns minutos para o fim do turno, uma dupla encarrega-se de limpar a sala. Ao estudante Henrique Gabriel Gonçalves, 13 anos, que cursa o 7º ano do Ensino Fundamental, a nova tarefa não agradou. Já o colega Gian Garcia, 13 anos, vê a situação por outro ângulo:

— Eu acho bom, porque assim podemos ajudar as "tias".

Enquanto isso, as "tias" dão conta do serviço mais pesado. A diretora, Hildeburg, passou a chegar às 6h30min na escola, com a missão de limpar os banheiros antes da entrada dos alunos do turno matutino. Quando as aulas encerram, ao meio dia, ela corre para vestir as luvas e limpar novamente os sanitários, à espera dos estudantes da tarde. Ao anoitecer, a rotina se repete.

— Enquanto diretora, tenho vergonha de entregar uma escola suja para os alunos. Então, se precisar lavar louça, lavo. Se precisar limpar banheiro, limpo. Estou acumulando cinco funções: diretora, faxineira, cozinheira, secretária e monitora. Todos os dias, chego em casa destruída — relata Hildeburg, que só vai embora da instituição às 22h40min, quando os portões se fecham.

Para a vice, Rosa Sandra Carvalho, 49 anos, os baldes, vassouras e panos de chão também se tornaram instrumentos de trabalho. Diante da situação, afirma sentir-se desvalorizada:

— Se falar muito sobre isso, eu choro. Nosso emocional está lá embaixo, porque não temos valorização nenhuma. Não que limpar um banheiro seja indigno, mas temos muitas outras coisas para resolver na escola. Só não desistimos porque acreditamos na educação, mas tem dias que dá vontade de nem aparecer.

Na cozinha, Vera faz milagre

Com apenas duas merendeiras atuando na escola, a cozinha do refeitório passou a fazer, em vez de comida, milagres. Vera Lucia de Almeida, 61 anos, que há treze prepara os alimentos servidos aos alunos da Emílio Sander, relata que nunca vivenciou uma situação tão difícil quanto a atual. Ela, que chega na escola às 7h da manhã, é única responsável pelo preparo de mais de 600 refeições todos os dias, para os estudantes dos turnos da manhã e da tarde. Com a comida pronta, ainda precisa servir os estudantes, lavar toda a louça e limpar o local de trabalho. 

— É bem complicado, porque o trabalho está sendo muito pesado. Enquanto tiver forças, eu faço, porque os alunos e a direção não têm culpa desta situação. Mas, sinceramente, não sei até quando vou aguentar. 

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Questionada, durante a visita da reportagem à escola, sobre sua motivação para continuar exercendo a função, apesar da grande carga de trabalho, com lágrimas nos olhos a merendeira afirmou:

— São os alunos. Toda hora, eles dizem que me amam. Eu retribuo. 

Seduc: reposição em até 20 dias

Em nota, a Secretaria Estadual de Educação (Seduc) informou que a 2ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE) reuniu-se, na terça-feira passada, com a direção da escola. De acordo com a Seduc, todos os encaminhamentos já foram realizados na reunião. Mas, segundo a direção, o encontro com a CRE não foi conclusivo.

Segundo a pasta estadual, professores de Educação Física, Produções Interativas e anos iniciais do Ensino Fundamental já foram remanejados para assumir as respectivas vagas. Outras reposições no quadro docente devem ocorrer por ampliação de carga horária e novas contratações. 

Quanto a defasagem de funcionários, a Seduc comprometeu-se em aumentar a carga horária do monitor de Educação Especial de 20 para 40 horas semanais e contratar uma servente de limpeza e uma secretária. A previsão é de que os novos profissionais já estejam atuando em até 20 dias. Contudo, não houve manifestação da secretaria quanto a contratação de merendeiras nem de bibliotecário.

Visando agilizar a reposição dos quadros funcionais da rede estadual de educação, a pasta salientou, ainda, que o Estado autorizou a renovação de 19.980 contratos temporários em 2020 e abriu mais de 5 mil vagas para professores e servidores.

Produção: Camila Bengo

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