Delma e Anne: duas mulheres que, em suas áreas, quebram paradigmas - Diário Gaúcho

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Eu Sou do Samba31/01/2021 | 14h35Atualizada em 31/01/2021 | 14h35

Delma e Anne: duas mulheres que, em suas áreas, quebram paradigmas

Em seu texto de despedida, colunista Liliane Pereira apresenta as histórias da compositora e da professora de dança

Esta coluna é muito especial. Depois de um ano e quatro meses de uma relação Ímpar com os leitores por meio de textos que imprimem a identidade de muitos sambistas gaúchos, me despeço deste espaço para assumir um novo projeto. Agradeço ao leitores pelo carinho que recebi durante todos esses meses. Não foi pouco! E principalmente aos meus colegas e editores de jornal. Essa equipe é daquelas de levar pra sempre no coração.

Para me despedir, o texto desta edição é uma mistura de histórias de duas mulheres que buscam a quebra de paradigmas em suas funções. É minha forma de homenagear todas as compositoras e dançarinas do nosso mundo sambista. Elas são a poeta, escritora e compositora Delma Gonçalves Mattos da Silva, 69 anos, e a professora de dança Anne Ferreira, 25. 

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Cada uma com sua arte, elas mostram que o caminho da composição musical é sim um talento feminino que precisa ser reconhecido, e que o ato de rebolar o quadril não tem nada a ver com vulgaridade. Na vida, o caminho delas não se cruzou, mas na arte, as duas tem em comum o desempenho de um papel inspirador.

Delma: “Minha meta é seguir batalhando por um lugar ao sol” 

Delma Gonçalves Mattos da Silva, 69 anos iniciou como compositora aos 12 anos, quando escreveu os versos de uma canção de seu pai, Miguel Gonçalves, que era poeta, músico e compositor. Ele fez o refrão Delma concluiu a música.

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Trajetória de Delma na música iniciou aos 12 anosFoto: Cinekafuné / Divulgação

– Eu não tinha noção que ali começava minha trajetória como compositora. Aos 14 anos conheci o músico Bedeu, através de outro músico, Leleco Telles, que na época era meu namorado. Quando Bedeu soube que eu escrevia poesias, pediu para musicá-los, e nos tornamos parceiros musicais e amigos. Desta parceria, fizemos mais ou menos umas oitenta músicas – conta.

Em 2016, a compositora conseguiu reunir parte deste material para a gravação de um CD. A obra culminou em um show no Teatro Renascença.

História

Poeta, escritora, compositora, produtora musical e funcionária pública aposentada, Delma já não tem ideia de quantas músicas fez. Em seu histórico, como poeta, ganhou diversos prêmios. Ela foi criada em uma família carnavalesca intimamente ligada à Acadêmicos da Orgia.

– Participei por muitos anos como secretaria da escola. Lancei, inclusive, o Botequim Verde e Branco, trazendo artistas da cena musical e do Carnaval para se apresentarem. Atualmente, me dedico mais aos projetos particulares. E contribuo para o Sarau Sopapo Poético e do Arte Negra Atividades.

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Delma conta que ser uma mulher compositora não foi um caminho fácil.

– Tive muitas músicas gravadas por artistas, mas sempre fiquei escondida. Um dia, fiz uma canção em parceria com um músico de uma banda bem conhecida, e logo surgiu a oportunidade de eles gravarem, mas, quando saiu o CD, meu nome não constava nos créditos. Cheguei à conclusão de que, além da falta de ética e consideração, fui vítima de preconceito e machismo – diz ela, que continua:

– Somente agora, depois de meus 60 e tantos anos, com o advento da internet, estou sendo reconhecida. Tive minha primeira música gravada em 1971 e nunca parei de compor. Não vou parar, assim como fizeram Ivone Lara, Leci Brandão, Zilá Machado e tantas outras compositoras. Minha meta é seguir batalhando por um lugar ao sol. Assim como muitas compositoras negras fizeram antes de mim, e farão outras que virão.

Valorização

Integrante do Coletivo Mulheres do Samba Sul, que busca valorizar as compositoras aqui do Estado, Delma também destaca que hoje está muito mais evidente o número de mulheres compositoras, principalmente as negras, que estão inseridas no mercado da música:

– Isso é muito importante para mim. Na época em que comecei, aqui em Porto Alegre, não se via nosso nome citado. Sempre foi mascarado ou até ignorado. Nós, compositoras, éramos quase invisíveis.


Anne: “a dança era um ato de celebração da vida”

Anne Ferreira, também conhecida pelo nome artístico Femennei, tem 25 anos e é graduanda em Licenciatura em Dança pela UFRGS. Atualmente, ela faz um trabalho nas redes sociais voltado para o público feminino. Por meio da dança e dos conhecimentos ancestrais, ela busca auxiliar mulheres a dançarem, soltarem o quadril e viverem uma vida com menos peso e culpa. Afinal, de onde vem a ideia de que mexer os quadris e rebolar é vulgar?

Anne Ferreira, também conhecida pelo nome artístico Femennei, tem 25 anos e é graduanda em Licenciatura em Dança pela UFRGS.<!-- NICAID(14702470) -->
Movimentos em prol da liberdade feminina: eis a missão de AnneFoto: Daniel Cavalheiro / Divulgação

Mulheres que gostam de dançar deve ter ouvido que rebolar “não é coisa de mulher direita”. Por meio de seus estudos, Anne conta que essas crenças machistas tem raízes profundas no colonialismo.

– Em sociedades pré-coloniais, o corpo não era visto como pecado. Muito pelo contrário, a dança era um ato de celebração da vida, da fertilidade e da abundância. O que o colonialismo fez foi introduzir a ideia de pecado em culturas ancestrais, e foi assim que o corpo das mulheres deixou de ser visto como sagrado e integrado à natureza, e passou a ser demonizado e reprimido – diz ela, que dá um exemplo:

– Em vídeos de diferentes povos africanos, as mulheres mexem os quadris livremente em rituais de celebração. Ou seja, quem nos sexualiza é a visão colonial e patriarcal, pois mover os quadris é uma prática ancestral.

Amarras

Ela acrescenta, ainda, que todos os seres humanos movem a pelve para caminhar, para agachar, para parir.

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– É algo natural. Infelizmente, apenas sobre as mulheres recai o rótulo de vulgaridade, especialmente se isso gerar algum prazer, como alegria ou sensação de liberdade. Há muita confusão, medo e mitos a respeito do corpo feminino. Com a dança, busco ferramentas que auxiliem as mulheres a destravarem essas amarras – conta.

A dançarina a é oriunda de uma família matriarcal de mulheres negras. E nesse espaço, o corpo não era tratado como tabu.

– Sempre as vi alegres, dançantes, rindo e falando alto. Corpo, dança e brincadeiras expressivas sempre foram comuns. Falar abertamente sobre sexo também. O conceito de mulher submissa e recatada não se aplica às referências que tive enquanto cresci. Então, nunca me senti presa. 

Sem medo

Foi fora de sua “bolha” que Anne entendeu o preconceito com as mulheres.

– Quando entrei na faculdade de Dança e comecei a ministrar aulas, via meninas e mulheres com muito medo de se expressarem corporalmente e se permitirem dançar com liberdade e alegria. Foi daí que veio meu desejo de recolher tudo que aprendi com a minha ancestralidade matriarcal e dividir com mais mulheres. O caminho que escolhi para fazer isso foi a dança – diz ela.

No seu perfil do Instagram @femennei, ela divulga seus projetos para mulheres aprenderem a soltar o quadril sem culpa.

 
 
 
 
 
 
 
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