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Entrevista

Gabz fala sobre sua personagem em "Coração Acelerado": "Tirar a Eduarda de lugares de estereótipo é um desafio que tenho"

Atriz e rapper agora se aventura no sertanejo

11/04/2026 - 07h00min

Atualizada em: 12/04/2026 - 14h44min


Michele Vaz Pradella
Michele Vaz Pradella
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Léo Rosario/TV Globo/Divulgação
Acostumada ao rap, encara o desafio de cantar sertanejo

Você pode até não conhecer Gabrielly Martins Nunes, cria do Irajá, zona norte do Rio de Janeiro. Mas certamente sabe quem é Gabz, jovem atriz que vem brilhando em Coração Acelerado, soltando a voz na pele de Eduarda. Aos 27 anos, a artista que se destacou no slam (batalha de rimas do movimento hip hop) e que já gravou com Baco Exu do Blues encara o desafio de cantar música sertaneja na trama das sete. Em bate-papo, Gabz fala sobre sua estreia na comédia, destaca suas inspirações artísticas e se orgulha em ser ela própria, hoje em dia, inspiração para muitas meninas pretas.

Qual foi o maior desafio na composição de Eduarda, sua personagem em Coração Acelerado?

Eu acho que Eduarda traz muitos desafios. Fazer uma novela das sete é algo novo para mim, eu nunca tinha feito. E novela das sete tem um outro tempo. E a Eduarda é uma personagem com um drama muito profundo. Construir esse drama mais intenso, com esse tempo um pouco mais acelerado, é um desafio que tenho. É tentar humanizar e tirar ela de qualquer estereótipo que possa atravessá-la, sendo uma menina que vem de uma realidade tão difícil. Teve um dos arcos da Eduarda, por exemplo, do roubo no Mequetrefe, que me impactou muito, porque é um lugar muito delicado ainda, para a população negra, estereótipos que sempre atravessaram a gente nesse lugar. Então, tirar a Eduarda de lugares de estereótipo é um desafio que tenho.

Você é cantora e rapper, com feats com Baco Exu do Blues e participações no Rock in Rio. Como equilibra essas duas paixões artísticas?

Como eu equilibro? Numa grande corda bamba! Eu acho que o meu processo criativo vem junto com a música, ele vem junto com a atuação. Eu pretendo ter esse momento pós-novela mais focado, a música tem me chamado cada vez mais para ela e eu vou para onde o meu coração está pulsando no momento. Eu entrei na atuação de cabeça, porque eu sinto que a atuação é um processo muito longo. O processo de maturamento é enorme, ele exige muito tempo. A música também, mas exige muito dededicação, principalmente no Brasil, onde a gente tem algumas limitações e algumas construções para fazer. Quando eu falo de limitações, na verdade é quase o contrário, eu senti que eu precisava mergulhar muito de cabeça na minha carreira de atriz porque era um momento importante, não só para mim, mas um momento geracional importante para ter pessoas como eu dentro da televisão. Então, uma transformação foi feita ali e para isso acontecer eu precisava me dedicar por inteiro. Agora, eu sinto que eu estou conseguindo voltar para a música também e vamos ver como é que eu vou equilibrar tudo isso, convido todo mundo para assistir essa trajetória comigo. 

Você vem do rap e das batalhas de Slam, e agora vive uma cantora sertaneja. Você já tinha contato com o gênero? Como tem sido cantar durante as cenas?

Cantar sertanejo é um desafio técnico muito grande, porque é um gênero muito difícil de cantar e a gente tem um volume de músicas enorme. Então, para manter a voz, a gente precisa ter um lugar de disciplina, que é um desafio, mas um desafio delicioso. Acho que o rap me deu muita régua e compasso para simplesmente olhar para a música, para qualquer gênero musical, enquanto música. O rap faz muito isso. O rap tem uma cultura de sample que surfa muito em vários gêneros musicais e encara os gêneros musicais como um grande terreno para você ir pegando aspectos que você se identifica. Então, na verdade, acho que ser do rap facilita muito a minha vida para entrar e mergulhar em qualquer gênero musical. Tem sido muito divertido cantar, embora esteja sendo um desafio bem forte.

De que forma as batalhas de Slam te ajudaram a ser a artista que você é hoje?

Eu acho que as batalhas de slam me formaram enquanto artista, me fizeram me encontrar enquanto escritora, enquanto intérprete, e encontrar o que me pulsa para fazer arte. O grande motivo para eu fazer arte eu encontrei dentro da batalha de rima, observando pessoas que faziam arte pelo motivo que eu acho mais nobre de todos, que é pela necessidade de se expressar. Eram pessoas que gastavam dinheiro, gastavam uma passagem que às vezes ia fazer falta no fim do mês. Eu mesma, com a minha bolsa de iniciação científica, que era muito pouco dentro da faculdade, e eu era uma menina que morava em Irajá, eu tinha que atravessar a cidade para ir para a faculdade, aquele dinheiro da passagem fazia toda a diferença para mim e eu estava lá porque eu precisava, não era por nenhum outro motivo, não tinha uma pulsação disso ou daquilo, era porque a gente queria pulsar cultura, a gente queria se escutar, a gente queria ser visto, e para mim esse é o motivo mais nobre de se fazer arte de todos e isso é um grande guia para eu me manter sendo quem eu sou.

Você já dividiu a mesma personagem com Taís Araujo (viveu Helena criança em Viver a Vida, de 2009), que é considerada uma inspiração para muitas atrizes da sua geração. Além dela, que outras artistas você tem como referência?

Eu tenho muitas inspirações, desde Dona Léa (Garcia), Zezé Motta, Neuza Borges, as mulheres da geração da Taís também, a Juliana Alves, e também as minhas contemporâneas, como Duda Santos, a Clara Moneke, a Bella (Campos). A minha maior inspiração é a Issa Rae, que é gringa, mas que é uma multiartista. Eu acho muito bonita a trajetória que ela tem feito. A Viola Davis, com todo o movimento político que ela também tem colocado dentro da exímia atuação que ela faz. Eu gosto de me inspirar em pessoas que têm trajetórias que me encantam também. Isso acaba fazendo um pouco parte da arte para mim. Então, eu fico feliz de poder ter muitas inspirações e de conseguir “roubar” um pouquinho de cada uma delas.

Lucas Mavinga/Divulgação
Hoje, é inspiração para muitas meninas pretas

Já parou para pensar que, agora, você é a inspiração para muitas meninas pretas que te assistem? O que diria para elas?

Caramba, já parei para pensar nisso. Eu acho que, por eu ser uma pessoa de terreiro, uma das grandes coisas que o meu Pai de Santo me passou como valor é me entender enquanto um futuro ancestral. Eu me formo enquanto ser humano querendo ser um ancestral grandioso, um ancestral de trajetória inspiradora para as próximas gerações. E sendo uma pessoa pública, isso toma uma proporção muito maior. Eu acho que eu ainda tenho entendido um pouco o que é ser uma pessoa pública, mas eu sempre quis não ser invisível. E quando essa vontade veio dentro de mim, eu pensei, “tá bom, eu não quero ser invisível, então o que eu quero mostrar?”. Eu quero mostrar a minha contribuição para um mundo mais justo para pessoas como eu. Com a novela, tem muitas crianças me abordando, mais do que nunca, é uma coisa que eu acho muito bonita. Uma coisa que eu quero mostrar para as crianças é que elas podem ter a liberdade de ser pessoa, sabe? Eu sinto que existe uma pressão muito grande para a gente inspirar a valores, a lugares inalcançáveis, sendo que eu quero que as meninas saibam que elas têm o direito de sentir à vontade para ser gente, para errar, cair, levantar, experimentar coisas novas, se aventurar, ter coragem. Para a gente ter coragem, não tem que ter medo de errar. Isso é um lugar que eu quero passar e eu me sinto nessa responsabilidade. Eu acho que a nossa geração tem que ter essa responsabilidade. A geração anterior à nossa, de pessoas pretas, elas tiveram uma responsabilidade muito grande de abrir caminhos e de falar como sobreviver e como conseguir chegar a algum lugar. E essa geração, eu sinto que a gente vem com uma potência de mostrar que a gente pode viver, não só lutar. A gente tem que lembrar de lutar, mas a gente também tem um lugar de ser livre, de ser corajoso para também gozar, para também se sentir pertencente ao mundo de uma forma que a gente sinta prazer.

Lucas Mavinga/Divulgação
Aos 27 anos, assume o protagonismo da própria história

Sua estreia na carreira foi ainda criança, em Xuxa Sonho de Menina (2007). O que você lembra dessa época?

Eu lembro do (Marcelo) Adnet brincando com a gente, eu lembro de entrar no ônibus da Xuxa... E eu encarava essa coisa de ser atriz como uma grande brincadeira. Embora eu já entendesse um pouco o que era trabalho, o que era tudo isso, eu acho que isso era a coisa mais mágica de você ser uma criança atuando. Porque acho que nós, adultos, buscamos o tempo inteiro também a verdade cênica, que é a gente estar vivendo o universo imaginário, vivendo de verdade. E eu acho que isso é a coisa que a criança tem mais fácil dentro de uma técnica de atuação, que é conseguir chegar mais rápido nesse brincar, viver o universo imaginário. Então eu lembro muito disso. Eu lembro de estar realmente vivendo um sonho de menina, de estar vivendo um universo totalmente diferenciado do que eu podia imaginar. 

Se você pudesse voltar ao passado, o que diria para a pequena Gabrielly?

Se eu pudesse voltar ao passado, eu diria para a Gabrielly Martins Nunes não ter medo. Porque tudo que eu consegui na minha vida foi pelo risco. Foi pela fé cega e faca amolada. Então um dos grandes marcadores da trajetória dessa menininha é não ter medo e não perder essa menininha, com toda certeza, porque é ela que dá sustentação para tudo.

Depois de interpretar Viola em Mania de Você (2024), que tinha uma trama mais densa e dramática, veio a leveza de Duda em Coração Acelerado. Quais são os principais desafios do drama e da comédia? Em que gênero se sente mais à vontade?

A Duda é uma falsa leveza, porque ela tem um lugar ali de uma comédia, de um bom humor, mas ela tem um drama muito grande e avassalador, e o drama da Duda, é até mais aprofundado do que a própria Viola. Elas têm uma coincidência, que as duas não tiveram mãe, só que a Duda conta essa história com mais profundidade, a história da Viola era mais focada ali no drama dela com a perseguição do Mavi (Chay Suede) e todas as questões da Luma (Agatha Moreira). A Duda não, ela vive diversos dramas, e eu tenho me divertido muito, aprendido muito a fazer gags de comédia com mais frequência, e é muito bom estar num set mais leve. Eu acho que a gente, enquanto ator, é muito divertido experimentar em vários lugares. Eu não sei dizer em qual me sinto mais à vontade, eu acho que a comédia é extremamente desafiadora. Eu gosto do inesperado, eu gosto de me desafiar, então, se eu dissesse para você qual me sinto mais à vontade,  provavelmente seria o que eu menos quero fazer, porque eu gosto dessa sensação de desafio. 

Lucas Mavinga/Divulgação
Gabz conta que é movida a desafios

O que significa para você, como uma artista carioca, periférica e negra, ocupar espaços de protagonismo na televisão?

Eu acho que significa uma mudança muito grande que está sendo feita. O meu grande motivo de vida é contar histórias que pertencem ao meu corpo, e sendo uma atriz, uma artista que veio de onde eu vim, que passou por processos de letramento dentro da arte diferentes do que pessoas que vêm da zona sul da cidade, eu acho que estar dentro da televisão brasileira é mostrar um caminho de possibilidade. É mostrar para o Brasil que algumas coisas são possíveis. Claro que ainda tem muitas coisas para serem feitas, mas a gente está aí nesse caminho, se movimentando e está sendo visto.

Depois de Coração Acelerado, que tipo de papel ou projeto você sonha em realizar em seguida? Sonha com algo bem diferente do que já viveu na telinha até agora?

Essa pergunta é maravilhosa, eu acho que tem muitos papéis que eu quero fazer, muitos papéis mesmo, porque temos muitas histórias para contar, mas eu acho que talvez, nesse momento, eu tenha vontade de me desafiar, de fazer algo no cinema. Eu tenho muita vontade de ter aquelas duas horas para contar uma história só. Eu acho que isso é um lugar que eu quero, e pode ser qualquer história. Porque a gente tem muita coisa para desbravar quando se fala de meninas negras, porque contamos poucas histórias sobre elas. Então, eu acho que alguma das várias histórias, eu tenho vontade de contar alguma coisa sobre algum período histórico da perspectiva de uma pessoa periférica no Brasil. A gente fez poucas coisas nesse sentido, eu tenho vontade de fazer e tenho vontade de assistir também.



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